Hoje, quando vinha para o trabalho, avistei, de dentro do ônibus, caminhando tranquilamente na rua, o Seu Pedro. Sempre muito solicito e elegante, com uma postura de por inveja em um lord inglês, trafegava calmamente pela rua geral aqui do Saco Grande, nas proximidades do banco do Brasil. Como eu gosto muito dele e o acho um companhia agradabilíssima, resolvi puxar a campainha do ônibus e saltar no ponto mais próximo. Nem precisei chamá-lo, tendo em vista que ele mesmo me viu saltando e veio ao meu encontro.
Com mais de 70 anos, aposentado por uma dessas repartições públicas do governo estadual e recebendo uma renda extra como mecânico autônomo, é desses velhos viúvos (como tantos aqui na ilha) que curtem a vida passeando e dançando nos bailes-matinês da cidade. Assim que eu o cumprimentei: – Bom dia, Seu Pedro!, já o notei com um ar alegre e jovial, típico daquelas almas de bem com a vida. Contudo, algo mais transparecia na figura daquele “bom senhor sacana”, pois um sorrisinho safado no canto da boca denunciava algo não contumaz em sua persona. Notando isso o indaguei:
— Qual é a boa, Seu Pedro? Estás indo ao banco?
— Estou sim, querido. Preciso sacar um dinheiro na boca do caixa, pois meu cartão está com problemas. É que preciso pagar o conserto dos amortecedores dianteiros do meu fusca, que eu quebrei ali na Palhoça.
— E quanto vai lhe custar essa brincadeira, senhor?
— 160 cruzeiros.
Embora tivesse que desembolsar essa quantia em reais de seu ordenado – dinheiro não planejado nas despesas do mês – o notara muito orgulhoso em me contar isso. Em vista disso, querendo provocá-lo, continuei a conversa...
— Aposto que o quebraste num desses bailões que o senhor anda por aí, né!?!
— Pois é, foi isso sim. Tava com um carro cheio de coroas, guri, e o fusqueta me deixou na mão.
— Mas também, né, Seu Pedro... o senhor não cuida do menino. Logo um mecânico aposentado não cuidar do seu valente carro, que o leva para tudo quanto é buraco. Me admiro do senhor...
— Não é isso não, meu filho, é que me meti com umas coroas num bailão lá no meio do mato, próximo à enseada do Brito. Tava com três coroas e meus planos era levar uma pra casa depois do bola-bola. Mas aí aconteceu isso e não deu mais nada certo.
— E como ficaram as coisas depois disso, senhor? Não ficaram, né. Não usei a baguinha azul. Fazer o que...!!
Narrando-me com um certo tom de ironia toda essa sua malograda história-não-conjugal, inocentemente não captei, nas entrelinhas de suas palavras, o real sentido daquela conversa. Não fui capaz de perceber qual o fato marcante, ou qual a intenção que Seu Pedro conservava em seus pensamentos ao narrar-me todos aqueles fatos. Todavia, vindo de quem vinha, não poderia tardar muito para se desvendar suas reais intenções. E foi justamente isso o que aconteceu.
—(...) Conheço uma coroa lá no morro. Conhecida há tempos... Viúva como eu. Vez ou outra marcamos uma folia lá em casa, sabe. Quando isso acontece – geralmente uma vez por semana –, ela vai lá em casa, sempre depois das 11 horas (23hs).
— Tá, Seu Pedro, já entendi... Mas diga-me uma coisa, com toda a sinceridade: essas coroas, já sessentonas, tem mesmo fogo?
Oh, rapaz. Cruscredo. Essa mesmo vou te contar... A mulher senta por cima de mim, enlaça as pernas no meu quadril que me estoura todo. Coisa horrorosa!! Mas é claro que primeiro eu tomo a pílula mágica, né (rsrs).
— Mas é mesmo, é...
— É sim... Mas também vou te contar o seguinte. A desgramada só quer saber de mamãe-e-papai. Eu já disse pra ela que isso é coisa ultrapassada, antiquada. Que o negócio mesmo é fazer uma chupetinha. Sabes o que ela me disse?
— Hum... O que?
— Deus o livre. Eu colocar um pinto na boca? Não, né. Mas tu se acostuma, mulher, é facinho facinho.
— E aí, Seu Pedro... Já conseguiu.
— Ainda não, meu filho. Mais eu ainda pego aquela danada de jeito.
Pois é, eis o Seu Pedro. Sempre com uma história interessante para nos contar. Cada coisa bacana que eu ouço dele no auto-atendimento do banco do brasil. Eis uma das vantagens de se trabalhar com o público, principalmente com o público simples que ainda insiste em permanecer incólume nessa pequena ilha do atlântico sul.
*HISTÓRIA OCORRIDA EM 01-06-2011
Les yeux sont aveugles, il faut chercher avec le couer.
Antoine Saint-Éxupery
Nunca me permiti desfrutar do honrado direito à preguiça. Só, vivi minhas esperanças de maneira egoísta, encastelado nesta redoma em que envolvi minha vida e que me impermeabilizou do mundo a minha volta. Só, arrastei meu viver: com pouca astúcia, me preocupei com minha carreira e com o meu trabalho e claudicando caminho com parcimônia, qual uma criança amedrontada. Os labirintos de minha alma não consigui desvendá-los, jamais logrei sequer vislumbrá-los. Minha história poderia ser contada dos seus acasos, dos momentos fortuitos em que esbocei um sorriso sincero, das poucas vezes em que, com voracidade, presenciei com alegria o lusco-fusco de um final de tarde. Tal qual o mau vidraceiro, aquele mesmo de Baudelaire, não deixo transparecer o lado belo e poético da vida. Minha aura é branca como a cegueira.
Ainda assim, me considero um sujeito (in)fortunado. Porém, minha sorte não deriva do que foi minha vida, não do que senti ou experimentei, não do que presenciei. Minha ventura é o seu inverso na essência: é a similitude do meu testemunho; do que eu poderia ter sido e não fui; do que eu poderia ter vivido e não vivi. É a consciência, de minha parte, dos sabores que deixei de experimentar, das delícias da vida que deixei de aproveitar... Minhas amarras eu mesmo as construí. Na masmorra em que foi minha vida, eu mesmo me deixei entrar. E por isso, não posso me queixar, pois sempre logrei o que almejei. Minhas metas e objetivos sempre os alcancei, pois sempre tive o direito de lutar pelos meus parcos sonhos. Quantos tem esse direito?
Revisitando o meu passado, relembrando o que não fui, percebo o quão fugaz é a vida e o quão relutante é o tempo. Passam-se horas, dias, os meses e os anos, sisados, esfacelados pelos vorazes segundos que regem o relógio do pai-tempo. Quantos dissabores! Quantas ilusões! Para que tantas leituras, tantas metas, tantas fórmulas aritméticas, se não me permiti ao menos provar do sabor acre-doce da vida? Se não me permiti experimentar suas agruras, seus sobressaltos, suas rusgas, seus lampejos de felicidade?
Nossa vida pode ser contada em poucas palavras, os escritores é que tem a mania de encompridá-la. Eis meu enredo: vivi no luxo, cercado de amigos que me esqueceram, em voltas com bebidas e festas aos finais de semana; sempre trabalhei, pois sou fiel à ideia de quem não trabalha nunca alcança – o que não me foi de todo mal enquanto gozei de boa saúde. Todavia, se uma criança simples me perguntar como é o ocaso da primavera, ou como é passear com meu filho por um parque numa manhã ensolarada de sábado, não saberia lhe responder, pois não me dei o direito de desfrutar das coisas mais singelas da vida. Ademais, sou seco feito uma pedra: não repassei a ninguém minha herança miserável... Mas quem alcança tudo o que deseja nessa vida? Certa vez li em algum livro, algum almanaque, sei lá, que o real sentido da vida, o savoir vivre, que seu espectro e seu segredo não estão no seu prolongamento, no alongamento compulsivo de nossa idade corpórea, mas no sentido que damos aos poucos momentos em que nos são reservados à Felicidade. Em suma, como diria compadre Nestor, “a vida é feita de bons momentos”. Eis sua virtude, sua essência; eis a única maneira de tornarmos nossa existência menos degradante.
Há pessoas que não raspam a casca do tempo com medo de descobrir o que há dentro. E talvez por isso mesmo que eu seja um (in)fortunado, pois enxergo hoje o que não vira outrora. Todavia, bem sei que sou cego e que meu coração está fechado, e que esse fino e misterioso invólucro que esconde o tempo, nada mais é que uma reles peça de teatro, dividida em atos, cujo introito e o cabo são difíceis de delimitar. Se nada mais tirasse eu da vida que essa tacanha lição, ainda assim me consideraria um sábio. E mesmo que eu atravesse a Eternidade desejoso de desvendar em vão o mistério dos séculos, a história do mundo, o limiar do universo, ainda assim me considerarei um sábio.
Fui meu algoz. Vivo-me repetindo: “Sou meu algoz!” Arrastei minha vida na esperança vil de que o tempo me traria a bonança, a tranquilidade terrena. Contudo, não notei que estava alimentando a tempestade que se tornaria minha existência. E agora, fatigado, respiro aliviado, com a serenidade infantil de um velho à beira da morte: a velhice é o momento de reconciliação do homem com o mundo; a simbiose perfeita entre o ser e o seu ethos. Na velhice o homem se torna mais doce e afável, aproximando-se gradativamente da simplicidade e beleza infantis. Eis minha sensação hoje da velhice; eis a ideia corporificada de como eu poderia ter sido, não fosse minha patia. Eis a sensação que se tem quando se está face a face com a morte. Tivesse eu forças para clamar por meu epitáfio, afirmaria, em letras garrafais: “vislumbrei com os olhos o que fui incapaz de sentir com o coração, e aí pousou minha infelicidade”. Abro os olhos da alma no momento em que me fecho para a Vida.
A construção da imagem e do tipo caipiras, dentro da literatura e do cinema, foi elaborada à luz de imagens e conhecimentos preestabelecidos e estagnados no tempo. A representação de sua imagem está, ainda hoje, atrelada a um modo de ver externo a sua cultura e corresponde aos interesses de quem detém o poder. A contingência dessa caracterização guarda máculas desse embate cultural e de classe entre o caboclo e o senhor de terras, detentor dos meios de produção. Analisada devidamente a “pluralidade” de tipos caipiras em Monteiro Lobato, na literatura, e Amácio Mazzaropi, no cinema, o que se vê é a perpetuação dessa imagem e a instituição de uma identidade de certa forma anômala do caboclo, o que fez com que fosse pintado, nos dizeres de Antonio Candido, de maneira bela, injusta e caricatural. Mesmo buscando a verossimilhança, ambos os autores acentuaram e fizeram retumbar com mais força e amplitude a marca negativa desse estereótipo, imprimindo-lhe de novo apenas um olhar piedoso e/ou analítico acerca das condições “paupérrimas” de vida do caipira paulista, sem, entretanto, irem a fundo em aspectos pertinentes a sua cultura e modo de vida. Compreendendo os períodos entre 1914 e 1970, o trabalho apresentado, além do exposto, faz um passeio pelo breve século XX, mostrando de que forma os principais acontecimentos deste século foram encarados no país.
Para saber mais SOBRE O LIVRO, acessem: http://fazendomidia.com.br/lobatoemazzar
Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado mundo é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio…
Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.
Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano.
By José Saramago. In: http://caderno.josesaramago.org/2009/03/0
Domingo chuvoso. Mais um entre tantos aqui na Ilha de Santa Catarina. Como não estou para conversas, peço a gentileza de não me lerem, pois estas linhas brotam como forma de desabafo de um cara sem saco pra porra nenhuma, e por isso nascem tortuosas, sem ânimo, ofuscadas pela rebeldia insana sem fundamentos práticos. É que não aguento mais o cheiro e o gosto desse nosso mundo: odor de sexo barato, de puteiro de beira de estrada e gosto de grana fácil. Queria eu estar inspirado para compor uma bela glosa, ou então publicar nesse espaço algumas linhas literárias. Mas como eu poderia, se amanhã terei que sair cedinho de casa para ganhar dinheiro para um banqueiro e um grupo de acionistas (extorquindo pobres trabalhadores como eu), que a essas horas estão em algum belo arquipélago, como o das Ilhas Seychels, ou outro paraíso na terra? Admiro os grupos políticos fortes, não esses grandes partidos que fazem os grandes e monótonos espetáculos (previsíveis, eis o maior pecado) eleitorais, mas sim esses pequenos grupos independentes, ou esses partidos revolucionários filiados à LIT, mundo afora. Eu os idolatro porque vejo neles uma verdade a qual o mundo não está acostumado. Uma verdade que expõe todo esse odor pútrido que exala o mundo. Estou de saco cheio!! Queria lutar, mas não me sinto animado, queria correr, mas não tenho para onde, queria falar a (minha) verdade, mas não tem quem me ouça. Então o que fazer? Disseram-me que trabalhar é a melhor opção. Mas as minhas escolhas? E meu direito à preguiça? Bem, ao menos não sou um negro ou um índio num país feito de racistas. O mundo está repleto de salvadores... O último, o da moda, vem do norte, das terras do grande império. E assim vamos andando e, a partir de agora, à espera do seu Godot, isto é, de Obama. Vamos a ver quanto tempo durará a garrafa de oxigénio.
A fachada
aponta para cima
cava o baixo do vale
rodeia côncava
o aberto círculo
da baía e plasma
na geografia
protuberante
de textura cálida
e generosa terra
sensual.
Meus lábios tocam o da senhora morte,
que me convida a dormir pela eternidade.
Em pé na minha janela vendo a chuva cair
dou um piparote nessa velha senhora,
que se retrai timidamente
enquanto a velha cidade me beija
com nuvem, mar e poesia.
Segundo Pierre Bordieu, na voz de Patrice Bonnewitz, a cultura escolar é a cultura da classe dominante. Em outros termos, o que pretende salientar o autor é que a escola legitima a cultura da classe burguesa como única e incontestável, relegando, ou melhor, desprezando as outras formas culturais e de experiências que não se encaixam nesse modelo burguês. Isso porque tanto a escolha das disciplinas, como a própria linguagem simbólica (regras, comportamentos, ambientes) adotada na escola é produto da relação de forças entre grupos sociais. Assim, segundo Bourdieu, não existe justificativa alguma em se estudar a literatura canonizada e não se estudar as outras formas de linguagem e representação artísticas mais características das classes populares, ou menos consumidas pelos representantes da classe dominante, como a história em quadrinhos, os grafites, o hip-hop, etc.
Como os filhos das classes superiores dispõem de um capital cultural herdado de suas famílias, é mais fácil para eles lograrem êxito no que concerne à assimilação e adaptação às exigências estipuladas pelo sistema escolar. Este capital cultural adquirido logo cedo por essas crianças “compõem um ambiente propício às aprendizagens e explicam o sucesso escolar dos filhos destas classes. Estas aquisições, constitutivas do habitus, produzirão seus efeitos ao longo do percurso escolar. Assim, não é surpreendente que os 'herdeiros', estudantes oriundos da burguesia, sejam super-representados nas universidades, em relação aos 'bolsistas', de origem social modesta”. (BONNEWITZ, 2003, p.115)
Dessa forma, a escola age como impositora cultural — guinada sempre pelo grupo dominante —, cujo principal objetivo é impor a visão de mundo burguesa, e não outra. Daí o fracasso escolar, na perspectiva de Pierre Bourdieu, da maioria das crianças filhas de operários e de membros de classes menos abastadas.
Para que a escola possa realizar a produção social, isto é, garantir a dominação dos dominantes, ela deve ser dotada de um sistema de representação fundado na negação dessa função. Tal é o papel da ideologia, definida numa acepção marxista como um conjunto de representações deformadas das relações sociais produzido por uma grupo ou uma classe e realizando uma legitimação de suas práticas. A ideologia apóia os sujeitos e tende a erigir suas práticas sociais em práticas legítimas, diante dos outros grupos ou classes e/ou classes. (BONNEWITZ, 2005, p.116)
Sob essa perspectiva, não é sofisma afirmar que a escola, longe de ser libertadora, é sim conservadora, pois atua em função da manutenção da ordem vigente e mantém a dominação dos dominantes sobre as classes populares.
Essa dominação, por outro lado, não é feita apenas pela escolha do currículo escolar — que requer dos alunos afastados do sistema um verdadeiro processo de desculturação, de negação do seu próprio modelo de enxergar o mundo —, mas também pelo sucateamento, no Brasil, do ensino público. Ou seja, não bastasse o fato de a escola se mostrar indiferente às diferenças de habitus, implementando uma “pedagogia da ausência de pedagogia”, os alunos do ensino público brasileiro ainda sofrem com o descaso do Estado brasileiro para com a educação pública. Assim, alunos do ensino público, no Brasil, sofrem, concomitantemente, duas exclusões: a de ter um programa curricular extremamente alheio ao seu modo de ver e pensar o mundo e a pouca estrutura que a escola pública brasileira oferece.
Ademais, tem o fato da “diferença da língua”. A língua burguesa comunica um certa ligação com a linguagem, uma certa tendência à abstração e ao intelectualismo. Já a língua popular, mais dinâmica e versátil que a primeira, “se manifesta inversamente, por uma tendência a majorar o caso particular, a desenvolver pouco as argumentações estruturadas, ao contrário das exigências escolares. A criação da cultura escolar aparece assim como um exemplo de violência simbólica”. (BONNEWITZ, 2005, p.120)
Todas essas questões se tornam evidentes e incontestáveis quando transplantadas para uma análise mais estrutural da educação brasileira, em especial a educação pública, ainda mais agravada pelo descaso do Estado. Não que a educação brasileira não seja toda ela excludente e repressora, impondo uma linguagem e um modo de ver o mundo eminentemente burgueses, pelo contrário. Acontece que nesse processo os alunos da educação pública sofrem ainda mais em decorrência do descaso e da falta de políticas sérias para a educação brasileira. A educação, ao invés de estratificar a sociedade, ou melhor, de reforçar a estratificação social vigente, deveria atuar como agente libertador e igualitário entre os diferentes membros sociais, não excluindo a matéria oficial, desde que importante para o crescimento intelectual do aluno, porém não relegando as outras formas culturais de ver e pensar o mundo, de forma a buscar equalizar o erudito e o popular. Eis a meta da educação: tornar o erudito popular e o popular erudito, mais ou menos como o fez Vinícius de Moraes, usando elementos populares e eruditos em sua poesia musicada, muito ouvida e reconhecida.
Tratando-se no ensino da língua portuguesa essa também é a meta. Contudo, ao se afirmar isso é claro que não está se excluindo o ensino da gramática normativa nas salas de aula; o que se pretende é passar esses conhecimentos de uma outra maneira. Primeiramente, no que concerne ao professor, este, ao meu ver, tem servir como uma espécie de elo entre o aluno e a matéria abordada em sala de aula, dando voz ao aluno e respeitando seu tempo e seu modo de ver e perceber o mundo a sua volta. Por outro lado, o assunto abordado não pode ser o mesmo que se dá hoje no ensino convencional, principalmente no ensino do português. Isso porque a gramática é uma espécie de convenção lingüística, um acordo estipulado entre intelectuais e estudiosos, que decidiram estipular o estudo da língua dessa maneira e não daquela outra. Ou seja, quando se convencionou a estrutura básica da gramática normativa do português, o fez se baseando em escritores já canonizados, como Luiz de Camões, Machado de Assis, Eça de Queiroz, dentre outros, excluindo-se completamente o português das ruas e desrespeitando, inclusive, as diferenças regionais.
Não obstante, como se viu, a gramática foi elaborada à luz de escritores de diferentes épocas, o que quer dizer que o português ali contido nunca existiu enquanto língua viva e orgânica de fato, ainda mais que entre Brasil e Portugal, por exemplo, existem significativas diferenças de elaboração lingüística nem sempre respeitadas pela gramática tradicional (normativa). Assim, como o português padronizado como língua oficial foi calcado tendo como base escritores canonizados, somente uma parcela pequena da população, já afeita às leituras de muitos deles, conseguem pleno êxito nas salas de aula, em se tratando de língua portuguesa. Os demais (a grande maioria) claudica e se sentem desestimulados em aprenderem algo que não condiz com sua realidade, com o seu modo de ver o mundo, e acabam se sentindo incapazes de dominar aqueles códigos, achando que não dominam a própria língua da qual são falantes nativos.
Isso porque a gramática tradicional praticamente despreza a língua falada. Fazendo uma simples metáfora é como se a língua fosse um rio corrente, que tivesse em constante mudança, em constante movimento, e a gramática uma poça de água, estagnada e velha. Quando o rio enche demais e transborda, renova parcialmente a água daquela poça, trazendo novas águas e elementos. Assim é a linguagem, e por isso que uma vez ou outra a gramática sofre algumas pequenas alterações. Porém, estas só vêm a acontecer quando as alterações lingüísticas extravasam os meios populares e chegam aos membros da classe dominante.
Cabe, assim, ao professor de língua portuguesa, assim que ciente dessas questões, buscar alternativas do ensino da língua que fujam dessas técnicas, sem, contudo, excluir o ensino do padrão, pois esse se faz importante no meio social. Uma técnica interessante, e que vem dando certa em algumas escolas, é trabalhar com produção textual em sala de aula, estimulando a criatividade e a leitura em sala de aula. Um dos caminhos hoje interessantes é buscar trabalhar com textos acessíveis não somente no meio impresso, mas também em outras fontes, como mídias (literatura falada), por exemplo.
É claro que para se trabalhar com esse tipo de material, supõe-se, no mínimo, que a escola tenha uma biblioteca razoavelmente estruturada. A técnica não é difícil e pode ser uma alternativa interessante para se passar o conhecimento formal, sem excluir, ou sem desprezar as experiências dos alunos. Cada um leria um livro a seu gosto, elaborando em seguida um pequeno resumo escrito do livro e trocando-o com outros colegas, assim como também os livros. Como forma de estímulo à leitura, podería-se tentar as mídias, que instigariam os alunos a buscar, quem sabe, outras fontes. Com a leitura continuada, os alunos, intrinsecamente, apreenderiam com mais facilidade as regras gramaticais, cabendo ao professor, apenas, a tarefa de indicá-los as diferenças entre a linguagem coloquial — viva, criativa e orgânica — e gramática tradicional.
Todavia, a técnica a ser usada é um mero detalhe nessa discussão, na medida em que o escopo deve recair na forma em como é explorado o conteúdo do ensino de língua portuguesa nas escolas brasileiras. Tratando-se a gramática como linguagem formal padrão, acessível aos poucos que têm acesso à cultura denominada erudita, cria-se uma espécie de guerra onde os que dominam o código lingüístico se enquadram mais facilmente nos mecanismos classistas sociais. Quem não domina esse sistema de códigos tem uma oportunidade menor de sucesso, na medida em que não dialoga diretamente com a classe dominante. Enquanto não se altera a o programa curricular no Brasil, o papel do professor de língua portuguesa é servir de ponte entre o aluno e a matéria oficial, sem contudo desculturalizá-lo. Não fazer isso é incorrer ao erro de sempre e perpetuar um preconceito não reconhecido: o preconceito lingüístico.
Sentado em seu leito, Hélio olha perdidamente para o seu reflexo projetado no espelho dependurado sob a parede. Aquela figura esquálida, de meia idade, calvo e de cabelos grisalhos parece distorcer-se levemente como se o seu reflexo aos poucos se esvaísse. Sinceramente não se perturbara mais com esta imagem, pois há alguns dias já percebera tamanha disparidade em seu reflexo. Provavelmente alguma falha no espelho provocara assustadora aberração, embora jamais ouvira alguém lhe relatar nada semelhante. Nem mesmo ele, sempre tão taciturno e pacato, acreditava ter nesse fenômeno algo de sobrenatural ou sobre-humano. Também pudera, tratar uma “simples” distorção de seu reflexo como algo extraordinário poderia significar que desvirtuados estavam seus sentidos, o que, de fato, não parecia corresponder com a verossimilhança dos fatos. Pelo contrário, sempre muito solícito, o discreto escriturário de um modesto escritório de advocacia já até pensara em adquirir um novo espelho para dar cabo a esse desagradável equívoco. Idéia que imediatamente teve que ser adiada não somente pelo simples fato de a lua já estar posicionada no ponto mais alto do céu, anunciando que já era passada a hora de seu descanso, mas principalmente pelo dispêndio que tal ato causaria ao seu modesto e suado ordenado.
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Uma fina e úmida névoa matinal de inverno encobre o ambiente, ofuscando levemente a paisagem. Embora a temperatura esteja amena e o sol ainda não tenha desbancado por completo no horizonte, o nosso Hélio retira de seu guarda-roupas seu velho paletó puído e cheirando a mofo. Um ato quase que frenético usar uma peça tão quente para um inverno com temperaturas relativamente elevadas e ausente do típico vento sul que costuma bater impiedoso, e com freqüência, na cidade de Florianópolis. Certa vez lera em um livro, perdido na imensidão turva de sua memória, que o vento é portador de importantes coisas. Não sabia ao certo o que isso significava, nem que proporções adquiria em sua vida tal afirmação, mas temia a possibilidade de não ter que conviver com as fortes rajadas, quase que diárias, de vento. Temeroso a qualquer meio de transporte marítimo, tinha a convicta certeza de que não sofreria do mal de Ulisses, 20 anos à deriva em alto-mar, mesmo porque nem à praia gostava de ir, embora residisse não muito distante de algumas. Esse seu curioso gosto pelos ventos alíseos — que, se não o traziam benefícios concretos, malefícios muito menos — poderia ser explicado talvez por essa dificuldade física que o ser-humano tem em se adaptar a novas experiências que fujam ao seu cotidiano fatídico.
De qualquer forma, o sol já despontara no horizonte. Como a semana é de férias, não se apressou em levantar-se da cama para ir trabalhar. Caso fosse dia de expediente, sua refeição matinal seria sorvida rapidamente, com nacos de pão sendo alternados com goles esparsos de café preto, seqüência que seria realizada quase que automaticamente por nosso protagonista. Nesse dia, não sabe bem o porquê, acordou pensando na sua imagem desfigurada no espelho, pensamento que repeliu de imediato. De fato, é de se estranhar tamanha atitude, na medida em que para Hélio Gasparini a sua imagem desfigurada, mesmo que vista de relance, pouco o incomodava. Sentiu um espasmo por perceber que a aterrorizante visão não o deixava em paz. O estado de letargia que se abateu sob Hélio foi breve porém intenso, e o fez indagar a respeito de todos esses constrangedores e perturbadores acontecimentos. Seria tudo isso verdade? Não estaria ele enganado, ou até mesmo iludido? Lembrara, nesse momento, que a primeira vez que percebera algo de diferente no seu reflexo foi numa tarde chuvosa, após beber praticamente uma garrafa inteira de vinho. Ademais, essa imagem não teria sido vista no espelho, e sim na beira da praia, enquanto caminhava após a estiagem da chuva. A sensação que teve, naquele momento, é que sua imagem borrava gradativamente até se tornar uma imperfeita mancha.
Não deu muita atenção ao ocorrido, mesmo porque sua visão, além de deturpada pelo efeito do álcool, ficou prejudicada pelo leve balancear das sinuosas ondas. Contudo, desse dia em diante todas as vezes em que se deparou com sua imagem no espelho teve essa mesma sensação, embora não tão claramente quanto naquela primeira vez na praia. Talvez por isso tenha se mantido, até nesse instante, relativamente despreocupado com esses fenômenos. Acontece que nessa manhã de julho, ensolarada e amena manhã de inverno, Hélio despertara pensando em todas essas coisas. Por um instante sentiu medo de se deparar com seu próprio semblante. Não fazia sentido, sabia bem disso, todavia preferia evitar sua própria imagem a ter que se deparar consigo mesmo, seu maior medo. Mesmo ciente de que nada havia de errado consigo, e de que ninguém, nenhum colega de bar sequer, tivesse notado pequena diferença que fosse em seu semblante, algo lhe dizia, nesse momento, que sua fisionomia estivesse de fato desfigurada. Sensação que tentou aplacar de imediato, mas que inevitavelmente não conseguiu.
A saída que encontrou nosso protagonista para afastar os maus pensamentos foi se dirigir, ainda cedo, para o bar Maria do Mar, próximo à orla da praia da Barra da Lagoa, não muito distante de sua casa. O aconchegante bar é propriedade de Dona Dorotéia, uma senhora gorda,com um olhar cândido e um sorriso acalentador e com fartos seios pendendo sob suas largas roupas. Viúva de um marinheiro gaúcho, mudou-se ainda jovem de Fortaleza, com o marido, para Florianópolis, de onde nunca mais veio a sair. Com o falecimento precoce do marido, lá pelos idos da década de 1960, montou, com o dinheiro recebido do governo, esse modesto, porém agradável e muito bem freqüentado bar. Como já afirmado, a manhã estava deveras agradável, propícia para um passeio à beira-mar, curtindo o calor gostoso das manhãs ensolaradas de inverno e relaxando com o balé das gaivotas que sobrevoam os barcos de pesca fundeados no canal da praia. Todavia, com o espírito um tanto nublado, Hélio refuta essa opção, dirigindo-se ao Maria do Mar.
— Quem é vivo sempre aparece, hein!, disse sorridente Dona Dorotéia. Fazia tempos que não te via por essas bandas.
Com um ar de poucas palavras e incomodado pela presença inoportuna da mulher, resignou-se a cumprimentá-la com um discreto sorriso, seguido de um leve aceno de cabeça, respondendo o que quase sempre respondia: “— ocupado, minha senhora. Muito ocupado”. Verdade é que Dorotéia sabia que não estava ocupado, mesmo porque bar é local para tudo quanto é tipo de gente, menos para gente ocupada. Até mesmo em seu estabelecimento, conhecido pelos moradores da região como local agradável e tranqüilo para se freqüentar, é incomum a visita repentina de alguém que vive ocupado. Seu bar é freqüentado por pescadores no final de tarde, por pessoas à procura de um momento de lazer, após estafante dia de trabalho, por pessoas em férias, ou até mesmo por bêbados e vadios, estes em horário de baixo movimento. Todavia, para Dorotéia todos eram desocupados à procura de lazer, ou melhor, à procura do que fazer. Não existia freguês seu que não tinha tempo para uma visita semanal que fosse, a não ser que esse freguês se chamasse Hélio Gasparini.
— Vais beber alguma coisa?, perguntou carinhosamente a mulher.
— Que tal uma cerveja bem gelada para relaxar...
Com a rapidez e a exatidão dos bons comerciantes, prontamente foi atendido. Assim que deu o primeiro gole, notou algo diferente no semblante das pessoas a sua volta. Teve a ligeira sensação de que estavam todos lhe observando, como se fosse algum estranho ou algum forasteiro. Contudo, quanto mais analisava, menos percebia que algo de estanho à natureza comum ao bar acontecia. Por um momento fortuito teve essa ligeira sensação: que todos o olhavam, como se não o conhecessem. De imediato lembrou-se daquele fato elementar de sua consciência, irritando-se. Também pudera, não é comum pessoas de seu círculo social o indagarem com olhares suspeitos e constrangedores. Não estava acostumado a isso, daí seu irritamento. Menos mal que parecia apenas uma impressão sua, alimentada pelo seu transtornado espírito, fato que, todavia, não contribuiu para amenizar a suspeita de que estava sendo vigiado.
Querendo aparentar tranqüilidade, mostrou-se indiferente e sereno. Nesse momento já tinha esvaziado meia garrafa de cerveja e já estava se preparando para encher mais um copo. Queria encerrar logo a garrafa para poder se esconder dos olhares inquisidores que o cercavam. Não entendia como não percebera ainda ninguém o vigiando, já que sentia estar sendo constantemente observado. Algo um tanto estranho para o nosso amigo Gasparini, já que se não estava cercado apenas de amigos, muito menos de gente estranha o estava. Agoniado e constrangido, e achando toda essa situação uma bobagem criada pela sua cabeça, dá um enorme gole de cerveja, sorvendo todo o líquido contido no copo de uma única vez. É nesse momento que, de relance, se depara com sua imagem projetada na mesa que estava sentado. Um detalhe que o narrador escamoteou do leitor diz respeito ao fato de as mesas do Bar Brasil serem todas redondas e com tampos de vidro levemente escurecidos e ornados com uma singela peça artística em consonância com a decoração ambiente.
Quem viu a expressão de desespero que se abateu por alguns segundos sob o rosto do nosso protagonista, não teve outra sensação que não a de medo, um medo ocasionado por uma respulsa erigida pelo estado de terror que assumiu seu semblante. Novamente aquela visão o perturbara; novamente sua desfigurada imagem se construía em seu pensamento, fazendo-o crer que era uma fera. Perplexo pelo que viu — é que desta vez parecia ainda mais desfigurado seu reflexo — bebeu rapidamente mais um copo de cerveja e se retirou sem pagar a conta e sem se despedir de Dorotéia. Atitude que para a proprietária do bar foi considerada normal, na medida em que conhecia bem a personalidade de Hélio. Não fora a primeira vez que se retirara sem falar com ninguém, nem mesmo com ela, colega de anos. De repente decorra daí sua relativa indiferença a essa atitude repentina. “— Vive com a macaca, esse velho rabugento!”, dizia, com um discreto sorriso nos lábios, a proprietária do bar.
Foi assim que deixou para trás o Maria do Mar, rumo a sua casa. Certamente muitas coisas pensou nesse trajeto, pois ficara realmente com uma “pulguinha atrás da orelha”. Se até então apenas ele tinha notado algo de estranho em si mesmo, agora a situação mudara, pois não foram poucos os olhares furtivos porém desconfiados. “— O que será que está acontecendo comigo? Por que diabos estou me transformando num sujeito sem expressão, quase sem identidade?”, perguntou a si mesmo. E é bem assim que se sentia: um sujeito sem expressão e identidade. Já no seu quarto, resolveu deitar-se na cama para descansar um pouco. A idéia era dormir para tentar esquecer esta tarde, porém sabia que não conseguiria descansar tão cedo, já que em sua cabeça ruminavam muitos pensamentos — um verdadeiro turbilhão de sentimentos. Como se pode perceber, a vida de Hélio Gasparini é monótona e, até certo ponto, solitária. Quando não está trabalhando, vai para casa, e quando não faz uma coisa nem outra passa no bar de Dorotéia. Uma vez ou outra que pratica uma caminhada na praia para espairecer os pensamentos e sentir o cheiro gostoso da maresia. Porém, após aquele acontecimento, nunca mais se aventurara a caminhar pelas areias brancas da praia. O receio que aquela inusitada situação o causara, fez com que Hélio se encastelasse ainda mais, se tornasse ainda mais introspectivo e retirado.
Atitude execrada por alguns a maneira como Hélio se escondia em si mesmo, mas atitude certamente tomada como uma medida preventiva e de auto-preservação de si mesmo. Ainda mais agora, após notar certa estranheza no semblante das pessoas que o analisavam. Sempre muito solícito, Hélio nunca fora uma pessoa exposta aos olhares furtivos, porém agora estava completamente recluso, à parte do mundo que o cerca. Até mesmo seus peculiares modos sofreram algumas mudanças, e seu gosto pelo passeio, sentindo o forte vento sul batendo no seu rosto (acompanhado de seu puído paletó), teve que ceder lugar à reclusão em sua casa. O sol que anteriormente resplandecera imponente nas paredes internas de seu quarto, agora se escondia fugidio por detrás das persianas — espécie de invólucro protetor que nutria em Hélio uma espécie de segurança materna.
Como nosso amigo Hélio não tinha ninguém para orar por ele, acabou contratando uma empregada, ou melhor, uma pessoa para limpar sua casa semanalmente. Mesmo que não fosse uma pessoa desatenciosa com os afazeres domésticos, serviços mais pesados de limpeza necessitavam de alguém mais experiente para o assunto. Como as férias ainda eram correntes, Hélio Gasparini permaneceu trancafiado em sua masmorra, relativamente despreocupado com o mundo a sua volta . Lamentava apenas as horas demoradas que prolongavam ainda mais seus dias e suas noites. Talvez por isso passava dois ou até três dias inteiros trancado em seu quarto, com as janelas fechadas e a porta semi-aberta, apenas digerindo esses acontecimentos. É como se a relativa escuridão que envolvia o seu quarto o acalmasse, fazendo-o esquecer, mesmo que por instantes, sua degradante situação. Até mesmo a mulher que ele contratara para fazer os serviços mais pesados da casa raramente o via. Mesmo porque não durou muito no ofício, a pobre mulher, já que, para Hélio, o fato de ter que conviver quase que diariamente com aquela figura desconhecida causava-lhe um certo desconforto e mal-estar.
E não era para menos, já que seu reflexo, cada vez mais borrado, desfigurava agora não somente seu rosto, mas seu corpo por inteiro, a ponto de se sentir, Hélio, como uma enorme e berrante mancha ambulante. Se outrora apenas o seu rosto era uma massa desfigurada, agora todo o seu corpo também o era. Braços, pernas, dedos, joelhos e pés, nada escapava. Tudo se tornara uma massa amorfa, como se todo o seu ser se contorcesse. Nesse momento, por algum motivo fortuito, Hélio Gasparini percebeu que não seria mais o mesmo, que sua identidade mudara para sempre e que o restante de sua vida passaria trancafiado em seu escuro quarto. Nunca mais sentiria o vento sul tocar o seu rosto, nem iria mais ao bar Maria do Mar — local para ele aprazível. Até mesmo as raras caminhadas na praia agora começavam a fazer falta, motivo que o levava a crer que toda a sua vida sumira, tornando-se uma página obscura num passado remoto.
Passados alguns meses de seu sumiço ninguém notara sua falta, a não ser Dorotéia, que, por vezes, ia a sua casa, à procura de notícias. Não encontrando nada, nem ninguém, voltava cabisbaixa para o bar, indagando-se qual seria o seu fim. Raramente se falava em Hélio, raramente se comentava a sua repentina ausência. Nem mesmo os colegas de trabalho, alguns afeitos a sua presença, sentiram a sua falta. Independente do que diziam ou deixavam de dizer acerca da pessoa inusitada que fora Hélio Gasparini, o certo é que sua figura ficara para sempre ofuscada na lembrança de todos que um dia tiveram contato com ele. Hélio Gasparini evaporara do mundo como uma fina névoa, não deixando saudades ou lembranças, ficando apenas, em seu lugar, uma figura amorfa, sem nome, títulos e identidade.
"...As operações começaram às 2 horas do dia 25 de outubro com a ocupação pelos soldados, marinheiros e integrantes da Guarda Vermelha de instalações públicas, tais como os correios, os telégrafos, a central telefônica, a estação ferroviária, a central elétrica, o serviço de abastecimento de água, os armazéns de abastecimento de alimentos, os arsenais militares, o Banco do Estado, e também das grandes gráficas. Não houve luta e os primeiros prisioneiros se entregar resignadamente.
O apoio à insurreição, ao Soviete e aos bolcheviques era tão maciço que não houve necessidade de barricadas nem de intensos tiroteios nem de movimentação súbita de tropas. Tudo ocorreu sem que muito sangue jorrasse. Às 10 horas, embora ainda não se tivesse tomado a sede do governo provisório, o Palácio de Inverno, o Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado divulgou um boletim anunciando a vitória, a deposição do governo e a transferência do poder para o próprio Comitê. Às 12 horas o Pré-Parlamento foi evacuado e os seus membros se dispersaram sem resistência.
Mas a rendição do Palácio de Inverno não tinha se consumado.
O 2º Congresso dos Sovietes da Rússia, cuja data de início era prevista para o mesmo dia 25, foi instalado antes que o Palácio de Inverno fosse ocupado pelos insurretos. Evidentemente houve atraso no início dos trabalhos, uma vez que todos queriam saber sob que governo transcorreria a reunião. Na abertura contaram-se 650 delegados com direito a voto. Os bolcheviques, como se esperava, conquistaram a maioria: 390 votos. Mais tarde vieram mais delegados e o número de participantes chegou a 900. Mantiveram-se os bolcheviques em maioria: numa primeira votação, contaram-se 505 votos pela passagem do poder para os sovietes, contra 162; assim mesmo esses 162 votos dividiam-se entre votos dados pela "democracia" e outros tantos dados em favor do governo provisório, uns pretendendo que os cadetes seguissem no governo, outros contrários.
Os conciliadores fizeram diversos discursos exigindo o fim da insurreição e assegurando que se fosse derrubado o governo, os bolcheviques não sustentariam no poder por mais do que alguns poucos dias ou que a Rússia ingressaria numa guerra civil. Como suas ameaças não surtissem o efeito imediato desejado, desanimaram e foram abandonando a Congresso dos Sovietes. Os delegados socialistas-revolucionários dividiram-se: os de esquerda permaneceram no Congresso, os outros se foram. Cerca de metade dos mencheviques - uns 70 delegados - também deixaram o Congresso.
Às 2 horas e 10 minutos do dia 26 de outubro, quando a sessão de abertura do Congresso já invadia a madrugada, o governo provisório rendeu-se."
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O texto acima é de José Augusto Alvarenga, e pode ser lido aqui.
Nem tão longe que eu não possa ver
Nem tão perto que eu possa tocar
Nem tão longe que eu não possa crer que um dia chego lá
Nem tão perto que eu possa acreditar que o dia já chegou
No alto da montanha, num arranha-céu
No alto da montanha, num arranha-céu
Se eu pudesse, ao menos
Te contar o que se enxerga lá do alto
Com céu aberto, limpo e claro ou com os olhos fechados
Se eu pudesse, ao menos, te levar comigo lá
Pr'o alto da montanha, num arranha-céu
Pr'o alto da montanha, num arranha-céu
Sem final feliz ou infeliz...atores sem papel
No alto da montanha, à toa, ao léu
Nem tão longe, impossível
Nem tampouco lá... já
No alto da montanha, num arranha-céu
No alto da montanha, num arranha-céu
Sem final feliz ou infeliz...atores sem papel
No alto da montanha, num arranha-céu
PARA ASSISTIR AO VÍDEO DESTA BELA CANÇÃO:
http://www.youtube.com/watch?v=awuximye5
Só se pode viver perto de outro,
e conhecer outras pessoas, sem perigo de ódio,
se a gente tem amor.
Qualquer amor já é um
pouquinho de saúde,
um descanso de loucura.
João Guimarães Rosa
A lenha espocava na fogueira.
Lá fora o agricultor trabalhava
à espera do almoço,
que não tarda nunca em sair.
Em casa, o feijão esquenta na panela
enquanto a mulher alimenta as galinhas.
Todos os dias são iguais no campo...
Ai, meu Deus, que solidão.
ANTES DE COMENTAREM ESSE TEXTO, PEÇO-LHES A GENTILEZA DE CAPTAREM NAS SUAS ENTRELINHAS, POIS, EM NENHUM MOMENTO EXPRESSEI SENTIMENTOS DE DESRESPEITO A ESSA OU ÀQUELA CRENÇA. O INTUITO DESSE POST FOI PURAMENTE E MERAMENTE LITERÁRIO. ALIÁS, NÃO CREIO EM COISA ALGUMA QUE DIGA RESPEITO A RELIGIÕES OU CRENÇAS, O QUE ME TORNA UM CRISTÃO-NÃO-PRATICANTE (CRISTÃO DE BATISMO). SE ESSAS PESSOAS FOSSEM CONHECEDORAS DAS MITOLOGIAS ANTIGAS, ANTERIORES AO CRISTIANISMO (GREGA, SELTA, EGÍPCIA...) SABERIAM QUE SÃO TODAS REESCRITURAS UMAS DAS OUTRAS. SENDO ASSIM, DEUS NÃO EXISTE, NÃO É MESMO? NEM DEMÔNIOS E MUITO MENOS BRUXAS. QUANDO EU POSTEI ESSE TEXTO, QUIS APENAS DEMONSTRAR COMO ESSA CULTURA FOI FORTE EM TEMPOS MAIS REMOTOS (PENA QUE A MAIORIA DOS COMENTÁRIOS FORAM BURROS...) E COMO ERA EXPRESSADA. ENTÃO, ANTES DE FAZEREM QUALQUER CRÍTICA, VÃO SE INFORMAR OU RETORNEM PARA ESCOLA, POIS PRECISAM A APRENDER A LER. QUANTO ÀS POUCAS PESSOAS QUE ENTENDERAM O INTUITO DESSE TEXTO E SE EXPRESSARAM, DEIXO MEUS AGRADECIMENTOS. SEGUE O TEXTO NA ÍNTEGRA...
É costume na Ilha de Santa Catarina, entre o povo nativo da região, descendente de açorianos, crer que quatro vezes ao ano, no início de cada nova estação, as bruxas reúnem-se com o Diabo e beijam-lhe o rabo, em reunião, para planejarem as maldades nesse período. Segundo a tradição, bruxas preferem atacar pessoas impertinentes, mas não só, gostando também de prejudicar crianças e fazer maldades contra outras pessoas. Para afugentá-las criou-se essa reza:
ORAÇÃO CONTRA AS BRUXAS
Pela cruz de São Saimão
Que te benzo com a vela benta
na sexta-feira da paixão.
Treze raios tem o sol,
treze raio tem a lua.
Salta demônio para o inferno,
pois esta alma não é tua.
Tosca Marosca,
rabo de rosca.
Aguilhão nos teus pés
e relho na tua bunda.
Por baixo do telhado
São Pedro, São Paulo e São Fontista.
Por cima do telhado
São João Batista.
Bruxa tatarabruxa,
tu não me entres nesta casa,
nem nesta comarca toda.
Por todos os santos, dos santos,
Amém!
Aprendi com o Rodrigo de Haro
que Poesia é plasticidade.
Com o Rodrigo de Haro entendi
que o poeta é simples e espontâneo,
como aquela senhora
debruçada ao pé do oratório
rezando para a Virgem Maria.
Cansado eu me retiro do trabalho. Sete horas da noite e essa merda de semana que não passa. Sempre digo que o trabalho numa repartição é o mais enfadonho, pois se cumpre um expediente vazio e sem muito o que fazer. O motivo que me faz trabalhar nessa porcaria de emprego não é o ônus que recebo por vender minha força de trabalho, mas simplesmente o aconchego e tranqüilidade que essa função me proporciona. Consegui esse trabalho por indicação de um amigo, há sete anos, e desde então não saí mais -- mera conveniência dada por uma brincadeira boba do destino.
Geralmente freqüento o Bar Brasil, na Alameda do Rato, após o expediente. Porém hoje, arbitrariamente hoje, estou sem saco para aturar as brincadeiras da Rosana Chupa-Rolas, aquela vadia gorda que trabalha no bar e acha que é gostosa. Hoje vou para casa dar um cheiro na Lurdinha e transar com ela de tudo quanto é jeito. Lurdinha é mulher fogosa e me ama. É o tipo de mulher feita para ter vários maridos, dois ou três por noite, dependendo do movimento e da necessidade. Acontece que atitudes desse tipo não fazem parte de seu gênio. Se assim fosse estaria até hoje me aturando?
Sempre que chego em casa me recepciona aos beijos, com carinhos e um sorriso lindo. Mesmo nos dias em que digo não, em que não correspondo aos seu afagos, ela se resigna a dar-me um beijo e dizer: -- "Tudo bem, querido! Amanhã faremos xenhenhem..." Por isso é que estou indo mais cedo para casa hoje, com uma linda rosa e um cartão nas mãos. Hoje aquela safada gostosa não me escapa; aquela depravada será minha. Hoje ela verá quem é Leocádio Santos.
Já avisto atrás da curva meu barraco. Aquela casinha azul, ali, modesta -- cenário comum às nossas obscenidades amorosas --, crepitará chamuscante logo mais. Lurdinha arderá fogosa em nossa cama, semovente como uma vampira ávida por sangue. É sempre assim com ela: quando a como sempre fica uma fresta da janela aberta no intuito de que alguém nos veja. Dá mais excitação e a faz gozar mais gostoso -- coisa que geralmente faz com a buceta em minha boca.
Chego em casa e abro, já louco, o portão devagar, como para fazer uma surpresa -- Lurdinha adora surpresas. Porém, quando entro no terreno, percebo que a janela está entreaberta e que, no quarto está Lurdinha com outro homem. De quatro ela geme e sua feito cadela no cio, pedindo pau e querendo ser chamada de puta. Louco e transtornado, penso entrar na casa e acabar lentamente com os dois enquanto transam e gozam. Porém, percebendo que tudo isso faz parte de um jogo, espio ansioso Lurdinha gozar, ciente de que ela sabe de minha presença.
Estranho é que parece ainda mais gostosa e insinuante no corpo de outro homem -- espécie de ritual de preparação para desejos incontroláveis. Com um puta tesão nada faço; espero apenas o tempo passar, até que se anuncie a hora de minha costumeira chegada, prenúncio amoroso da nossa hora marcada.
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* Resumo do conto homônimo escrito no mesmo dia.
... Ele vai Sendo.
Crescendo e sozinho, sempre,
vai traçando seu destino
como manda o figurino
de um menino carente.
Sem ambições, mas com perspectivas,
vai lutando sozinho...
Tentando um dia ser gente.
Chamado de Santa Catarina desde a sua colonização, a origem de seu nome remonta para dois fatos: 1) uma homenagem à Santa Catarina; 2) uma homenagem à Rainha Catarina, de Portugal. O certo é que, dos três estados que compreendem a região sul do Brasil (os outros dois são Paraná, ao norte e Rio Grande do Sul, ao sul) é o menor deles, porém o com maior potencial turístico. Com uma área de 95.442,9 km², o estado é um pouco maior do que a Hungria. Sua capital é a cidade de Florianópolis, uma ilha, e sua costa oceânica tem cerca de 450 km, ou seja, aproximadamente metade da costa continental de Portugal (943 km).
Os índices sociais do estado estão entre os melhores do país; a renda per capita catarinense é de 12.159 reais, a quinta maior do Brasil. Santa Catarina apresenta o segundo maior índice de alfabetização entre os estados do país, atrás apenas do Rio de Janeiro.
A sua colonização foi largamente efetuada por imigrantes europeus: os açorianos portugueses colonizaram o litoral no século XVII; os alemães e italianos colonizaram o Vale do Itajaí (ou Vale europeu) e o norte catarinense em meados do século XIX, os italianos colonizaram o sul do estado, no final do mesmo século, e outras etnias, como a polonesa, a austríaca (tirolesa), suíça e alguns russos colonizaram, no final do século XIX e início do XX, o meio oeste. O oeste catarinense foi colonizado por gaúchos de origem italiana e alemã na primeira metade do século XX. Essas características fazem do estado o mais europeu do Brasil, não sendo difícil de encontrar pelo seu interior, e também no litoral, paisagens bucólicas com vilas à moda européia.
Santa Catarina não é só verão. Inicialmente conhecido pela bela costa litorânea com mais de 500 praias (somente em Florianópolis, sua capital, existe cerca de 100 praias), o Estado amadureceu, explorando melhor a diversidade geográfica e cultural. O turista pode encontrar, percorrendo pequenas distâncias, cenários e climas de grandes contrastes – apenas duas horas de carro separam praias paradisíacas de montanhas com altitudes próximas a 2.000 metros. Há grande variedade na oferta de produtos e segmentos especializados que estão em operação em qualquer época do ano: turismo rural, estâncias termominerais, ecoturismo e aventuras radicais, patrimônio histórico, turismo religioso, turismo de terceira idade, os parques do Beto Carrero e o Unipraias, em Balneário Camboriú, o vale das cachoeiras, como mais de 150 cachoeiras, em Presidente Getúlio...
Alguns produtos só podem ser vendidos fora da temporada. O espetáculo da neve na Serra Catarinense, o único lugar do Brasil onde neva todos os anos. Berço do turismo rural no país, a região tem bons hotéis-fazenda, nos quais é possível realizar cavalgadas, passeios em charrete, caminhar por trilhas em contato direto com a natureza, degustar a gostosa comida campeira, pescar trutas nos rios gelados da região... Em outubro, acontecem as grandes festas -- 12 no total -- com destaque para a Oktoberfest de Blumenau. E, entre junho e novembro, ocorre a visita das baleias Franca no litoral – a procura pelo turismo de observação de baleias, altamente qualificado, tem crescido ano após ano.
Ao eleger Santa Catarina como destino, o viajante sabe que vai encontrar excelência. Além de vocação e potencial, o turismo catarinense possui profissionalismo, busca permanente de qualificação e muito trabalho. Conhecida como a Europa brasileira, pelas suas paisagens, pela aparência de suas cidades e de seu povo e pela neve, Santa Catarina apresenta ótimos índices em setores que afetam diretamente a atividade, como infra-estrutura, qualidade de vida, segurança, saúde, educação, formação profissional, atendimento, serviços... O Estado é o destino certo para fazer uma viagem sem sobressaltos. Mais de 90% dos viajantes querem voltar e o índice de satisfação dos clientes na rede hoteleira atinge 98%.
Visitar Santa Catarina é fazer um tour pela Europa sem sair do Brasil! O Estado foi colonizado por imigrantes provenientes de quase todas as regiões européias, que construíram seus povoados inspirados nos países de origem e preservando suas tradições. Hoje, essas antigas aldeias se tornaram cidades progressistas – e algumas parecem saídas de contos de fadas. Nas ruas é comum se ouvir diferentes sotaques.
O estado tem dimensões territoriais pequenas (apenas 1,12% do território nacional). Como as cidades são próximas umas das outras e as rodovias estão em bom estado, viajar de carro é um prazer. O turista vai percorrer um trajeto de sonhos, encontrando pequenas “alemanhas”, “itálias”, “portugais”, “ucrânias”, “polônias”, “áustrias”...
Além do mais, possui um patrimônio histórico bem conservado. No litoral, fica o conjunto histórico português-açoriano, especialmente notável nas cidades mais antigas – Florianópolis, São Francisco do Sul e Laguna –, com destaque para as igrejas e para as fortalezas construídas pelos portugueses em Florianópolis. A arquitetura enxaimel, típica da colonização alemã, está espalhada pelas cidades do Vale do Itajaí e do Norte-Nordeste do estado, que também exibe exemplares arquitetônicos das culturas eslavas – poloneses e ucranianos. Já os casarões de tábuas inteiriças dos italianos estão presentes em todo o Estado, mas há um conjunto histórico que inclui antigas casas de taipa de pedra nas cidades que compõem o roteiro cultural italiano na região Sul.
Santa Catarina começa a se firmar como um dos melhores lugares do país para turismo de negócios devido à localização privilegiada, aliada à excelente qualidade de vida, belezas naturais, espaços modernos para realização de eventos, segurança e qualidade no atendimento. Florianópolis, Blumenau, Jaraguá do Sul e Joinville constam, segundo revistas especializadas, entre as melhores cidades brasileiras para fazer negócios.
A realização de congressos, convenções e de grandes eventos ganha cada vez mais importância. Dez cidades já constituíram seus Convention & Visitors Bureaux. Durante 2001, foram realizados 11.215 eventos nos mais de 100 espaços existentes no Estado, que reuniram 5,1 milhões de participantes – o equivalente à população do Estado (Fonte: 1º Dimensionamento Econômico da Indústria de Eventos no Brasil, realizado pelo Sebrae e Fórum Brasileiro de Convention & Visitors Bureau). Somente em outubro, 12 festas típicas atraem cerca de 1,3 milhão de turistas. A maior delas, a Oktoberfest -- segunda maior festa alemã do mundo --, em Blumenau, recebeu mais de 600 mil visitantes em 2006.
O turismo catarinense tem estratégia e planejamento, sendo organizado em roteiros integrados que reúnem as afinidades geográficas e culturais regionais e contemplam, além das belezas naturais e aspectos culturais, oferta hoteleira e qualidade dos serviços. O objetivo é oferecer apoio aos agentes de viagem e ao turista em geral, para que o potencial do Estado seja explorado da melhor forma, revelando aspectos positivos e minimizando fatores adversos.
O objetivo é a satisfação do visitante, que pode eleger um ou mais roteiros com antecedência conforme suas expectativas e encontrar, em qualquer um deles, recursos humanos qualificados, boa oferta hoteleira, acessos rodoviários, aéreos ou marítimos, suporte turístico etc.
São oito roteiros: Caminho dos Príncipes, Rota do Sol, Grande Florianópolis, Encantos do Sul, Serra, Vale Europeu, Vale do Contestado, Grande Oeste.
Além dos roteiros, o Estado oferece produtos turísticos diferenciados, já consolidados, e atende segmentos específicos. O público da terceira idade, por exemplo, descobriu Balneário Camboriú. O Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento, já é o segundo maior destino de peregrinação religiosa no país. O filão do ecoturismo e das aventuras se mostra em expansão, assim como o turismo rural.
Enfim, como se vê, Santa Catarina é sim uma excelente opção para se passear e para se desmistificar uma imagem solidificada de um Brasil tropical e violento -- o estado tem a 3ª menor taxa de homicídios do país (4,67 por 100.000 habitantes). Vale a pena conferir.
Links em português:
Florianópolis:
http://www.panoramio.com/user/888002
http://www.florianopolisturismo.com.br
http://www.pmf.sc.gov.br/turismo
Blumenau:
http://www.turismoblumenau.com.br/conteu
Balneário Camboriú:
http://www.secturbc.com.br/?s=turista
Presidente Getúlio:
http://www.presidentegetulio.com.br
Palhoça:
http://www.palhoca.sc.gov.br/site/?page=Y
São Francisco do Sul
http://www.saofranciscodosul.com.br
Laguna:
http://www.laguna.sc.gov.br/paginas.php?p
Serra Geral (sul do estado):
http://www.acolhida.com.br
Lages:
http://www.lages.sc.gov.br
Treze Tilias:
http://www.trezetilias.com.br
Turismo por Santa Catarina:
http://www.belasantacatarina.com.br
http://www.sol.sc.gov.br/santur
http://www.webhotel.com.br/santacatarina/t
http://radarsul.com.br
http://www.ecoviagem.com.br/parques-naci
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