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BLOG do VISCONDE


Quinta-feira, 08.10.15

ONDE HÁ DOR HÁ LUCRO: o triste retrato dos imigrantes haitianos no Brasil e em Santa Catarina

A imigração é uma expressão global do direito de ir e vir. Uma conquista e um direito que todo e qualquer ser-humano, mulher ou homem, têm o direito de exercer, independente de sua condição social, crença ou raça. No entanto, ao menos para um setor mais conservador da sociedade brasileira, parece-me que esta conquista não é válida. Pelo menos para aqueles diferentes de seus congêneres.
 
Por isso, não é de se estranhar a repercursão que vem causando a imigração de centenas (ou alguns milhares) de haitianos para nosso estado. É bem verdade que, contrárias às manifestações racistas, xenófobas e fascistas referentes à chegada de trabalhadores haitianos ao país, há também outros setores da sociedade que se solidarizam com a situação pela qual passam estes imigrantes, que se vêm a nosso estado é procurando a dignidade que lhes foi roubada em seu país de origem.

Em todo o discurso contra medidas aplicadas em favor de imigrantes haitianos há um discurso racista disfarçado de nacionalista. O Brasil está com suas tropas militares no Haiti há mais de 10 anos. E durante todo este tempo não fez mais do que reprimir o povo haitiano para garantir interesses de grandes empresas (Disney, Levi's...) com sedes no exterior. A Minustah - que atualmente conta com aproximadamente 8.800 efetivos - foi destacada pouco depois da derrubada do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, em uma revolução protagonizada pelos trabalhadores em 2004. Conta com tropas de 16 países, sendo o Brasil o lider, por contar com o maior efetivo: 1.200 homens.

A ocupação militar no Haiti, liderada desde sempre pelo governo brasileiro (sem nenhuma oposição na câmara e senado), segue massacrando a população do país caribenho. Segundo organizações de "direitos humanos", inúmeras pessoas foram assassinadas e feridas pelos capacetes azuis da Minustah (Missão para Estabilização do Haiti da ONU, na sigla em francês), a partir de 2004. Desde então foram registrados massacres, torturas, estupros e outras agressões contra a população civil, sobretudo nas favelas.

O episódio mais violento foi registrado em 6 de julho de 2005, quando as forças da Minustah, com mais de 300 soldados, 18 tanques e pelo menos um helicóptero, realizou uma grande ofensiva em Cité Soleil. O alvo oficial era Dread Wilme, acusado de ser um líder de gangues. Evidências coletadas por diversos investigadores logo após a ação indicam que a Minustah foi protagonista de um enorme massacre. Dois dias depois, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira e o coronel Jacques Morneau afirmaram que desconheciam acidentes com civis e caracterizaram a operação como um sucesso. O coronel Morneau levantou a hipótese de que as mortes foram obra das gangues. No entanto, as provas coletadas contradizem esta afirmação e indicam que a Minustah, incluindo soldados situados no helicóptero, atiraram em civis desarmados, dentro de suas casas, destruindo-as. Cerca de 60 corpos foram encontrados.

O Haiti continua sendo o país mais pobre da América, onde mais de 75% da população vive com menos de US$ 2 por dia e apenas a quarta parte das rodovias são pavimentadas. Com a guerra e os golpes de Estado, a indústria têxtil haitiana diminuiu cerca de 80%, mas ainda representa 10% do PIB e 68% das exportações do país. Falta energia elétrica todos os dias e cerca de 80% da população está desempregada. Pelas tabelas oficiais, uma costureira na capital, Porto Príncipe, deveria receber US$ 0,50 por hora, contra US$ 3,27 no Brasil e US$ 16,92 nos EUA.

Para além do discurso oficial da ONU, de que a Minustah é uma missão humanitária e blá-blá-blá, os fatos concretos apontam para uma intervenção em defesa da manutenção de interesses estrangeiros associados às classes dominantes locais. Prova disso é a declaração do comandante da Minustah, o general brasileiro Heleno Ribeiro Pereira, que diante de uma comissão parlamentar no Congresso Brasileiro afirmou sobre o USA, Canadá e França: "Estamos sob extrema pressão da comunidade internacional para usar a violência". Em 2004, em entrevista à Rádio Metrópole, o general afirmou: "Nós temos que matar os bandidos, não qualquer um, só os bandidos".

Bandidos, no caso, são aqueles que se opuseram e se opõem à ocupação de seu país por tropas estrangeiras. Do outro lado estão as classes dominantes haitianas, latifundiários e grandes burgueses, cerca de 3% da população, representada essencialmente pelos grandes empresários Reginald Boulos, Charles Henry Baker, Jean Claude Bajeux e Andre Apaid.


A culpa é do imperialismo

Em 2011, o site WikiLeaks disponibizou documentos que deixavam clara a intervenção direta dos Estados Unidos para a manutenção do miserável salário mínimo haitiano. Segundo o documento, a embaixada estadunidense se reuniu, em 2009, a portas fechadas, com proprietários de fábricas contratadas pelas empresas Levi's, Hanes e Fruits of Londom com o intuito de bloquear o aumento do salário mínimo reivindicado pelos trabalhadores da indústria têxtil. Na ocasião os trabalhadores lutavam por um salário bruto de 62 centavos de dólar por hora, o que equivaleria a 5 dólares por 08 extenuantes horas de trabalho.

As gigantes multinacionais não queriam conceder mais "privilégios" para os trabalhadores da indústria têxtil, que já davam grande despesa mensal para os empresários com um salários diários de 70 gourdes por dia, ou 1 dólar e 75 centavos de remuneração diária. Isto é, 0,22 centavos de dólar por hora trabalhada.

 
Ciente da gravidade da situação, o embaixador estadunidense da época, Janet Sanderson, exigiu que o então presidente Préval resolvesse de uma vez por todas o impasse gerado sobre o aumento do salário mínimo e os protestos cada vez maiores e mais radicais pela sua conquista, temendo obviamente que "o ambiente político pudesse fugir de controle". Dois meses depois, Préval negociou um acordo com o Congresso para estabelecer dois tipos de salários mínimos: um para a indústria têxtil de 3,13 dólares por dia (125 gourdes) e outro para todas as outras indústrias e setores comerciais, de 5 dólares por dia (200 gourdes).

Mas mesmo assim, a embaixada americana não ficou satisfeita. O chefe da missão, David E. Lindwall, disse que um aumento para 5 doláres “não leva em conta a realidade econômica”, e teria sido apenas uma medida “populista” para apelar “às massas desempregadas e mal-pagas”. Segundo este mesmo senhor, um aumento de tamanha magnitude provacaria um colapso nas finanças das empresas, o que acarretaria em uma onda de desemprego ainda maior no país, amplificando ainda mais o colapso social por que passa o país: cerca 3,3 milhões de habitantes (1 terço da população) está em risco iminente de fome.

Segundo o haitiano Franck Seguy, que acaba de defender sua tese de doutorado “A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, sob orientação do professor Ricardo Antunes, o Haiti - ao contrário do que afirma a grande imprensa burguesa - não vem sendo ajudado. Pelo contrário! Mesmo com a extrema miséria, o Haiti é que ajuda a todos!

“A ajuda internacional ao Haiti é a grande mentira que a mídia conta”, disse o pesquisador. Em sua tese, ele sustenta que o catastrófico terremoto de janeiro de 2010, que deixou cerca de 300 mil mortos e 2,3 milhões de desabrigados, deu ao que ele chama de “Internacional Comunitária” – o conjunto de países hegemônicos e organizações a eles vinculadas, comumente chamados de comunidade internacional – a oportunidade de impor a recolonização do país. “Literalmente, o Haiti está se tornando uma colônia”, disse ele. “Não uma colônia como antigamente, a colônia de uma metrópole, mas é uma colônia do capital transnacional”.

O projeto de recolonização, afirma Seguy, já ficava claro no texto do “Plano de Ação para a Recuperação e o Desenvolvimento o Haiti” (PARDN), apresentado pelo governo haitiano dois meses depois do terremoto.  Este plano, que fora apresentado aos seus "parceiros internacionais" e não à sociedade civil do país, representa, na prática, uma mera atualização de um estudo realizado pelo economista Paul Collier, da Universidade de Oxford, enviado ao Haiti pelo Secretário Geral da ONU, e que publicou o relatório dele em janeiro de 2009”, explicou o pesquisador. Em suma, o que está sendo aplicado é um plano anterior ao próprio terremoto e com a exclusão de empresas haitianas do setor da construção civil.

O Haiti é dividido em departamentos, e a capital Porto Príncipe - local onde ocorreu o terremoto - se situa no Departamento Oeste. Contudo, no que concerne à “reconstrução” do país, a região que vem sofrendo intervenção é o Departamento Nordeste, no outro lado da ilha, mais especificamente no parque fabril de Caracol (construído em boa parte com dinheiro oriundo de ajuda humanitária e não de investimentos privados), em um terreno de “250 hectares de terras cultivadas por famílias campesinas, que o governo expropriou”. Tanto que, segundo um levantamento da agência de notícias Reuters, ainda havia, no final do ano de 2014, mais de 150 mil pessoas morando em tendas e abrigos improvisados e insalubres na capital, sem as menores condições de higiene, sem água limpa e sequer pias para lavar as mãos.

“No dia 11 de janeiro de 2011, ou seja, um dia antes do primeiro aniversário do terremoto, o governo haitiano havia assinado um acordo com a secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, junto a representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a companhia de têxtil coreana, Sae-A Trading, em virtude do qual os 366 lares de agricultores que trabalhavam 250 hectares de terras das mais férteis do município precisavam ser expropriados para deixarem o lugar à construção de uma zona dita industrial”, diz a tese. As famílias que tiveram suas terras desapropriadas ainda aguardam indenização.

A intenção é clara: explorar a mão de obra qualificada e experiente dos haitianos para que grandes empresas se aproveitem de uma série de leis dos Estados Unidos, que permitem que produtos manufaturados haitianos entrem no país sem pagar tarifas, para estabelecer uma série de zonas francas para a produção têxtil. Dado que o Haiti já produzira uma indústria têxtil relativamente consistente, o rebaixamento do custo de uma mão de obra bastante competente acarreta em produtos de qualidade aliados a um baixíssimo custo de produção, inferior inclusive ao custo da produção asiática, com a enorme vantagem da curta distância entre os dois países.
 
Asituação dramática dos imigrantes haitianos no país e em Santa Catarina
 
A viagem até o Brasil não é nada fácil para estes haitianos. A começar pela saída de seu país. Tendo como parâmetro os baixíssimos salários pagos no Haiti e a situação de verdadeiro caos social, com a grande maioria da população desempregada, note-se o quão é difícil arrecadar fundos para a saída do país na busca de uma vida um pouco menos indigna.

Famílias inteiras empenham-se na tarefa para que um, no máximo dois integrantes conquistem o dinheiro necessário para deixar a ilha. No total são necessários, entre passagens, gastos com os coiotes (atravessadores e aliciadores) e suborno de policiais no Peru para atravessar a fronteira, algo em torno de 15 mil reais. Daí já se tem a ideia da verdadeira epopeia que é migrar para o Brasil.

Não bastasse isso,  os recém-chegados são alojados em instalações precárias, aos montes, como se fossem bichos. Do Acre, sua porta de entrada para o Brasil, partem geralmente para São Paulo e, de lá, para os estados do sul do país. Alguns vão também para o Rio de Janeiro.

A situação no país de origem é tão ruim, que aceitam a exploração como forma de alimentar o sonho de um dia melhorar de vida e conseguir enviar dinheiro para ajudar seus familiares. Não a toa são empregados assim que chegam, em muitos casos. Não que o estado ou setores burgueses e pequeno-burgueses estejam empenhados na socialização dos imigrantes aqui no país. Pelo contrário! Aproveitando-se do medo de possíveis represálias, ou simplesmente do medo de retornarem de mãos vazias, exploram severamente estes trabalhadores em empregos muitas vezes subumanos.

Em São Paulo, por exemplo, é muito comum haitianos e bolivianos irem trabalhar em oficinas de costura. Estes imigrantes trabalham até 16 horas por dia, seis dias na semana, amontoados em salas claustrofóbicas. Em casos mais extremos, dividem alojamentos improvisados e insalubres, instalados anexos às oficinas onde trabalham e recebem uma remuneração mensal equivalente a R$ 300,00 por mês, sobre a qual é aplicada descontos ilegais referentes a hospedagens e à alimentação.

Esses casos de escravidão desnudam não somente a situação precária nas quais são recebidos e instalados estes imigrantes, mas principalmente desmascara o caráter humanitário da burguesia brasileira. Somente em São Paulo já foram desmontadas 50 oficinas até agora, todas estas com condições de trabalhos análogas às citadas acima. E o pior: legalmente os imigrantes têm o mesmo direito que um trabalhador brasileiro, mas não sabem disso!

Já em Santa Catarina, se (ainda?) não se tem registrado casos que expõem claramente trabalho escravo, também não dá para afirmar que as vidas dos imigrantes da ilha caribenha são um mar de rosas. Nesta ilha aqui, por exemplo, não é difícil encontrá-los trabalhando em locais por nós já "desprezados", tamanha a exploração e a precariedade do trabalho.

E mesmo aqueles que conseguem um emprego menos brutalizante, muitas vezes têm que trabalhar duas ou até três horas a mais para ter um salário compatível com a média do trabalhador brasileiro, pois percebem um salário que varia de 30 a 50% abaixo da média local. Eis o caso de Jeremi Dozina, em Florianópolis desde 2014, que em uma matéria publicada pela Folha, afirma: "Geralmente trabalho de segunda a sábado, folgando aos domingos. Estou registrado no trabalho, recebo um salário mínimo, mas não estou completamente regularizado. Ainda hoje só tenho o número de protocolo de entrada no país, que todos os haitianos recebem quando chegam. No Haiti não há tantas pizzarias como aqui. Lá a maioria da população não consegue comprar uma pizza, que é uma comida considerada de rico."

E por todo o estado a situação se repete. Em Chapecó e municípios limítrofes, por exemplo, eles são empregados nos frigoríficos da região, carente de mão de obra local tamanha a insalubridade dos postos de trabalho. Conhecidas como fábricas de mutilação, os frigoríficos recorreram antes a imigrantes argentinos, fugidos da crise de 2001, mas hoje recorrem aos haitianos, pois aqueles preferiram retornar a Argentina a ter que aturar o regime de trabalho dos frigoríficos.

Receber os imigrantes haitianos, refugiados de seu país, em Santa Catarina, não transforma a burguesia catarinense em uma classe social mais humanitária. Nós, catarinenses e brasileiros, devemos nos solidarizar com o povo haitiano e repudiar a ação truculenta da Minustah, que tanto tem colaborado para a manutenção das políticas imperialistas na região. Devemos exigir do governo brasileiro a retirada imediata das tropas do Haiti, pois além de prejuízo para os cofres públicos (bilhões já foram gastos), há também o desrespeito ao ser humano, ao próximo.

Não devemos jogar nas costas dos imigrantes a responsabilidade por nossas mazelas. Eles não roubam nossos empregos, como a imprensa muitas vezes sugere. Nem tampouco são contemplados com bons cargos em boas empresas. Pelo contrário: se há oferta de trabalho para os haitianos é pelo fato de os empresários daqui utilizá-los para impor uma exploração que estão tendo dificuldade de manter para os trabalhadores brasileiros. Compreender as dificuldades pelas quais passam estes imigrantes é um passo importante para combater a xenofobia e dizer NÃO AO RACISMO! Trabalhadores não têm pátria! Devemos antes de tudo questionar nossos valores, nossos preceitos e lutar com todas as nossas forças contra toda e qualquer forma de exploração, lado a lado não somente com os haitianos, mas com todos os trabalhadores. Afinal, há ser humano melhor que outro?
 
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Publicado originalmente em PSTU Florianópolis
 
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Dialogando:

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por Visconde de Sabugosa às 14:46

Quinta-feira, 08.10.15

A Histórica relação entre os EUA e Israel

 

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Há alguns dias a imprensa nacional destacou mais uma vez uma matéria que no ano passado causou um certo frisson não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Trata-se de uma pensão vitalícia que o governo dos Estados Unidos paga a velhos criminosos nazistas. Estas manchetes, que se arrolaram como vírus pela rede, chocaram o mundo por expor o lado corrosivo do sistema jurídico estadunidense.

Trata-se de uma "brecha" na lei que favorece esses criminosos. É que, conforme o próprio Departamento de Justiça dos EUA, a lei autoriza que estes benefícios sejam pagos a indivíduos que renunciam à cidadania americana e deixam o país voluntariamente. Obviamente, que a lei não se aplica aos latinos e negros na mesma situação, mas "encaixa-se como uma luva" para beneficar assassinos criminosos que lutaram ao lado de Hitler.

Parece ironia que a maior economia do mundo, a democracia mais bem constituída dentro do capitalismo, retire parte de seu orçamento para pagar a aposentadoria dos verdurgos de milhões de judeus, povo do qual afirma defender e admirar. É de fato uma notícia de fazer virar os olhos e torcer o nariz daqueles mais conservadores; daqueles que defendem a democracia burguesa como o mais bem-acabado sistema social que podemos criar. Perfeita para estes(as) senhores(as), que se consideram arautos da consciência política, defensores e pregadores de uma moral reconhecida por eles como íntegra e/ou divina. Destes(as) que não passam de meros filisteus, incapazes de compreender um palmo de realidade, que subjugam e deturpam a mais rasteira lógica formal. Por isso, não é de se espantar que a costumeira inversão de valores que proclamam estes batráquios hora ou outra cuspa em suas ventas os impropérios que lançam indiscriminadamente contra todos os que se prostram em seus Caminhos.

Estas já seriam manchetes interessantes por isso, mas não… Elas têm muito mais a dizer… muito mais a esclarecer… muito mais a desvendar… Primeiramente, por demonstrar de maneira clara o caráter do imperialismo e dos EUA em particular. Há muitos por aí defendendo que os Estados Unidos são a pátria da justiça, da idoneidade, da honestidade, onde há liberdade e oportunidade para todos. No entanto, a despeito do que divulgam seus propaladores, as relações entre os EUA e os oprimidos pelo regime nazista na Europa em guerra nunca foi das mais harmônicas.

Isso porque à época as diretrizes políticas do Departamento de Estado norte-americano dificultavam bastante a emissão de vistos de entrada para os refugiados. Apesar da perseguição constante aos judeus na Alemanha, a atitude do Departamento de Estado era influenciada pelas privações econômicas da época da Depressão (OBS: 1930 até meados de 40), que haviam intensificado o antissemitismo, o isolacionismo e a xenofobia da sociedade civil. O número de vistos de entrada foi ainda mais limitado pelo Departamento, devido à aplicação inflexível de uma lei de imigração restritiva, aprovada pelo Congresso dos EUA em 1924. A partir de 1940, os Estados Unidos limitaram ainda mais a imigração, ordenando aos cônsules estadunidenses no exterior que atrasassem as aprovações dos vistos sob a justificativa de questões de segurança nacional.

Como é sabido, o estado sionista de Israel instaura-se no Oriente médio no final da década de quarenta, logo que finda a segunda guerra mundial. Esta "base" do imperialismo na região, a despeito do que afirmam seus defensores, não foi criada para abrigar os perseguidos pelo regime nazista de Hitler (ou não somente), mas principalmente para facilitar a exploração das riquezas na região, em especial o petróleo. Daí a necessidade premente da construção de uma "base", de um estado autoritário, repressor e controlador no seio do Oriente Médio. Assim nasce o estado sionista de Israel.

Para este intento, não é pouco lembrar a forte influência que os sionistas têm na terra do Tio Sam. Diria até que o lobby sionista é o mais forte por lá, sendo financiado por grandes empresários e empresas multinacionais com interesses político-econômicos na região. Isso favorece o financiamento de uma gigantesca e eficientíssima máquina propagandística sionista que visa única e exclusivamente a reprimir os povos árabes na região, com o intuito claro de favorecer os interesses do imperialismo internacional.

Bem da verdade, o lobby sionista reúne grupos, empresas, políticos e indivíduos que influenciam os governos de países ocidentais, no sentido de apoiar os objetivos do sionismo em todo o mundo, mas especialmente na sustentação do estado de Israel. O lobby é particularmente poderoso nos EUA e na Grã-Bretanha, como aponta o livro "O lobby pró-Israel e a política externa dos EUA", escrito pelos professores John Mearsheimer (Universidade de Chicago) e Stephen Walt (Harvard). Nos EUA, a principal organização do lobby sionista é o AIPAC - American Israel Public Affairs Commitee (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel), fundada na década de 1950 e com mais de cem mil membros ativos. É reconhecida como um dos mais poderosos grupos de pressão estadunidenses, comportando não somente representantes da elite sionista, mas também outros setores da burguesia imperialista.

Não à toa países como EUA, Inglaterra e França gastam milhões de dólares por ano em “investimentos” paramilitares em Israel*. Financiam, à custa do trabalhador e com dinheiro público, um dos maiores exércitos do mundo, esta máquina de destruição e genocídio usada não somente para reprimir e matar sistematicamente palestinos como se fossem ratos e pragas, mas para atacar também outros países da região, como Síria, Líbano ou Egito, por exemplo. Não, o nazifascismo não acabou; somente mudou de lugar: da Alemanha capitalista de Hitler, "migrou", assim que findou a guerra, para o coração do Oriente Médio, sob a batuta gerencial da elite sionista, que também financiou com armas e dinheiro o nazismo na Alemanha. Para eles, o fim justifica qualquer meio.

Este é um ponto, mas não o único. Todavia, para explorar outras questões, vamos nos aproximar da linha de pensamento destes(as) senhores(as). Em sua torpe relação com a história por meio de suas “teorias” e conforme sua forma privilegiada e clarividente de enxergar a realidade, o regime nazista se assemelha em tudo ao que chamam de comunismo. Isso porque, segundo eles, o regime soviético à época de Stalin e a posteriori (ao qual associam ao comunismo) é igual ao nazismo de Hitler.

Há certa razão nesta analogia, haja vista ambos serem criações, personificações, ramificações políticas reacionárias de sistemas sociais completamente opostos: a primeira oriunda de uma burocracia reacionária que se apoderou politicamente de um estado operário recém-criado e a segunda fruto de uma contrarrevolução em um país capitalista central na Europa, a Alemanha. Sob esta ótica, o paralelo é válido, mas somente sobre esta ótica. Do mais, não passam de gagueiras esfarrapadas proferidas por um Iago grosseiro e vil, que não sabe nem a arte de seu ofício.

De maneira tal que, mesmo do ponto de vista filosófico-político mais simples, comparam duas coisas distintas e incomparáveis: para eles, comunismo (um sistema social) = nazismo (um regime de governo). Sem nunca se aprofundarem nos clássicos, desconhecendo completamente conceitos que um símio dominaria com algumas horas de estudo, estes(as) senhores(as) julgam-se capazes de explanar toda a riqueza e profundidade histórica por trás do stalinismo (que é a negação não somente da revolução russa e do socialismo vindouro após a revolução, mas também do marxismo) e do nazismo, pondo-os num mesmo patamar e no mesmo lado da balança.

Para eles, religiosamente e hipocritamente, o stalinismo é o arquétipo do comunismo, quando na verdade é sua negação; sua aniquilação. E creem nisso tão piamente que citam esta ou aquela nação imperialista como contraponto à barbárie comunista, listando exemplos do que este sistema é capaz, da riqueza que o capitalismo é capaz de proporcionar aos afortunados que trabalham (como se o trabalhador não produzisse, não trabalhasse) e desconsiderando as misérias que o imperialismo impõe a 95% de outros países. Comparam Suécia com Coreia do Norte, ou com Cuba, quando deveriam comparar Cuba com Haiti, duas nações periféricas do capitalismo, por exemplo; ou Suécia com Polônia, Ou mesmo Cuba com algumas cidades e estados do sul dos Estados Unidos, onde negros e latinos são jogados na miséria mais brutal e absoluta. Os mais honestos, certamente notariam que a revolução cubana, longe (bem distante mesmo) de se aproximar do socialismo, trouxe centenas de conquistas ao povo cubano à época, até hoje não conquistadas em países como o Brasil, por exemplo.

Arrogar-se de conhecimento político é uma prática comum neste meio. Inclusive entre os tabloides que se intitulam especializados, arautos da informação e da consciência, como muitos conservadores e até reacionários por aí. Pois bem, vou seguir a mesma fórmula destes(as) senhores(as) de espírito vulgar e estreito para chegar a uma conclusão insofismável: se nazismo é sinônimo de comunismo e os Estados Unidos financiaram os nazistas e ainda financiam Israel, podemos afirmar que os Estados Unidos, esta nação justa e vindoura, é também comunista.
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Pubicado orginalmente em PSTU Florianópolis
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* Segundo a embaixada dos EUA em Israel, os contribuintes norte-americanos financiam anualmente entre 20% a 25% do orçamento israelense de defesa. FONTE: The Big Lie: That Israel Is a Strategic Asset For the United States. Por Chas W. Freeman, Jr. The Washington Report on Middle East Affairs, set.-out de 2010, p. 14-15.

Matérias referendadas neste artigo:
 
http://www.bbc.co.uk/…/20…/10/141020_nazistas_eua_pensao_pai
http://brasil.elpais.com/…/internaci…/1413904751_965829.html

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por Visconde de Sabugosa às 14:39

Quarta-feira, 25.03.15

ESTE MAR NÃO ESTÁ PARA PEIXES

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Terminou a temporada de veraneio na grande Florianópolis. Milhares de turistas, como em todos os anos, visitaram as belas praias de nosso litoral. Contudo, a despeito de toda a beleza natural de nossa cidade, vive-se uma realidade bastante diferente de todos nossos cartões-postais: a precariedade em nosso saneamento básico.

Em estudo realizado pelo instituto TRATA BRASIL nas 100 maiores cidades brasileiras, constatou-se que, apesar da relativa melhora que tiveram cidades como Florianópolis e Blumenau, estamos ainda longe de índices aceitáveis de tratamento de água e esgoto não somente na região metropolitana, mas em todo o estado. Referido estudo apontou, por exemplo, que atualmente Florianópolis conta com apenas 56% de toda sua rede de esgoto tratada, enquanto Blumenau e Joinville, cidades onde este serviço já é privatizado, contam com apenas 30% e 31% respectivamente, sendo que a maior cidade do estado piorou seu desempenho de 2012 para cá.

Esta situação é alarmante em Santa Catarina, que, mesmo sendo um dos estados mais ricos do país, ocupa atualmente a 19a posição dentre todos os estados brasileiros, com apenas 21% de sua rede de esgoto tratada.


Há uma saída?

Não é de hoje que a sociedade civil busca alternativas para a questão do saneamento básico em nossa cidade e também no estado. Vários projetos apresentados neste percurso, com destaques para dois: um encabeçado pela prefeitura e pela Casan, que visa o transporte de esgoto e resíduos sólidos para duas regiões da cidade: os Ingleses e o Campeche, e outro descentralizado, encabeçado pelo grosso da sociedade e por técnicos das áreas de saneamento e gestão ambiental, denominado Mosal, Movimento Saneamento Alternativo.

O Mosal nasceu com a proposta de contrapor-se aos planos da PMF-Casan de implantar o saneamento centralizado com emissários na ilha. Isso porque este projeto, longe de resolver os problemas de saneamento básico da cidade, irá agravá-los, pois simplesmente transportará estes resíduos para duas grandes bacias da cidade, lançando, por meio de emissários submarinos, toneladas de esgoto nas bacias dos Ingleses e do Campeche.

Invés de tratar e solucionar o problema, o que a prefeitura, juntamente com a diretoria da Casan, pretendem é “tirar o esgoto daqui e jogá-lo para lá”, sem nem mesmo se preocuparem em tratá-lo e/ou reaproveitá-lo adequadamente. E isso tudo desrespeitando o anseio das pessoas que aqui vivem e das organizações de bairros e sociais. Em suma, o que pretende com este projeto, é beneficiar alguns empresários do setor, como a empresa japonesa Jaica, que investirá alguns milhões neste projeto, bem como seus acionistas (preocupados que estão somente com o lucro rápido e fácil), em detrimento de toda a população e da cidade.

Este modelo centralizado já foi implantado em outras cidades litorâneas brasileiras, como o Rio de Janeiro, por exemplo, onde boa parte dos detritos são lançados ao mar, na praia da Ipanema. O resultado ambiental desta prática é desastroso, pois a vida marinha simplesmente deixou de existir a um raio de 10 km em torno dos emissários submarinos. Pensemos isso em regiões como os Ingleses, onde há uma importante e tradicional colônia de pescadores, além do turismo, e no Campeche, onde encontra-se uma importante área ecológica e cultural, como a Ilha do Campeche, e entenderemos a gravidade do problema.

Acreditamos em um modelo descentralizado do tratamento de esgoto, isto é, tratar o esgoto doméstico localmente, ou próximo do local onde foi produzido respeitando as micro bacias e fazendo uso de diversas alternativas tecnológicas como tanque séptico, zona de raízes, biofiltro, tanque de Evapotranspiração e filtros anaeróbicos, dentre outros. O modelo descentralizado contrapõe-se ao modelo centralizado, proposto pela prefeitura, evitando os enormes impactos ambientais causados pelas grandes estações de tratamento de esgoto com emissários. Mas como este modelo não proporciona lucros para as grandes empreiteiras é relegado.


O Saneamento básico na mira da privatização

É conhecido por todos os escandalosos casos de corrupção nos processos de municipalização ocorridos em cidades que romperam o contrato com a Casan. Os mais divulgados foram dos municípios de Palhoça e, mais recentemente, Lages. Na cidade de Palhoça, o Ministério Público e o Gaeco (Grupo Especial de Repressão ao crime Organizado) prenderam os envolvidos no “nefasto esquema de corrupção”, conforme declarou ao jornal a juíza Carolina Ranzolin. Na ocasião Carlos Alberto Fernandes, ex-funcionário da Casan, seu filho Caco, do PSDB, e Luiz Fernando Silva, dono da empresa Raiz Soluções inteligentes foram presos preventivamente. Segundo a Juíza, um total de R$ 280 mil foi pago como propina pela manutenção do contrato.

No caso de Lages, sistema foi privatizado no ano de 2003 pelo atual governador
e ex-prefeito, João Raimundo Colombo, na operação denominada “Águas Limpas”. O Gaeco e o MP-SC prendeu o então Prefeito de Lages Eliseu Mattos (PMDB). Em dezembro de 2014, o MP-SC denunciou o prefeito e mais nove pessoas por crimes como corrupção, organização criminosa e fraude em licitação. De acordo com a subprocuradora geral de Justiça, Walkyria Danielski, o Prefeito Mattos, recebeu R$ 2,8 milhões em propinas da Viaplan, empresa que operava o sistema privatizado de água e esgoto, desde fevereiro de 2013 — o total de pagamentos de propina, incluindo outros servidores municipais, alcançou R$ 3,6 milhões entre os anos e 2013 e 2014.

Não é de hoje que esquemas de corrupção como este estão intimamente ligados às privatizações. Pelo contrário: corrupção e privatização sempre andaram de mãos dadas. Basta para isso vermos os recentes escândalos de corrupção desmascarados na Petrobras: enquanto a empresa não é completamente privatizada, setores da burguesia se favorecem não somente do desvio de dinheiro público, mas também se beneficiam de acordos espúrios e de cobrança de propinas através de contratos fraudulentos.

Seguindo esta ótica, dos últimos governos de Santa Catarina (Luiz Henrique e Raimundo Colombo PMDB– PSD) privilegiou a política de passar a responsabilidade do saneamento básico para as cidades (a chamada municipalização), ciente da impossibilidade de os municípios manterem este serviço, que deveria ser estatal, público e universal. Essa política vêm “incentivando” a privatização e, com ela, a corrupção. E com esta política a Casan vem sendo desmantelada, infelizmente.


Em defesa da Casan 100% Estatal e Pública

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De acordo com dados divulgados no balanço de 2014, a Casan lucrou R$ 74,737 milhões, praticamente 80% a mais que o ano anterior. A diretoria da Casan está animada com os resultados da companhia. A receita líquida de vendas do ano passado ficou em R$ 744,696, com crescimento de 12,8% frente à de 2013, que atingiu R$ 659,952. Desde o ano passado, a empresa realiza uma série de investimentos com recursos de empréstimos obtidos no Brasil (por meio do PAC) e exterior (pela japonesa Jaica). Na verdade, a maior parte dos investimentos mencionados, que estão sendo aplicados no saneamento em nosso Estado, são oriundos de empréstimos bancários com cobranças de juros, que serão quitados com o pagamento das tarifas pagas pela população, quando, na verdade, a luta histórica dos trabalhadores do setor de saneamento é por investimentos públicos e estatais a fundo perdido, pois só assim teremos condições de universalizar o acesso ao saneamento básico a toda à população pobre de nosso Estado e País.

No entanto, desde 2010, quando os deputados aprovaram o projeto do governo Colombo nº0236. 8/2011, de venda de ações da Casan para trazer um parceiro estratégico para a administração da empresa (leia-se privatização), a direção da Casan e o governo vêm preparando as finanças e preparando a gestão da empresa para aplicar esta maldita operação. Este modelo foi o adotado pela Sabesp. Isso ocorre no momento em que o povo de São Paulo vive uma crise hídrica sem precedentes e a população está lutando para garantir um direito básico a vida, a água. A causa está nas gestões nefastas e politiqueiras, que transferem os recursos públicos para as mãos de empresas privadas. Os tucanos do PSDB, em São Paulo, privatizaram Sabesp, que passou para os acionistas lucrarem bilhões e administrarem a empresa. Em SC, caberá aos movimentos sociais, em especial aos sindicatos combativos, o desafio de buscarem apoio junto à população, visando impedir que o governo Colombo (PSD/PMDB/PCdoB) leve adiante este nefasto projeto de privatização da água e do Saneamento em Santa Catarina.

Lamentavelmente, os trabalhadores em Saneamento de Santa Catarina, que nas décadas de 80 e 90, protagonizaram grandes lutas por direitos trabalhistas e contra as privatizações, hoje não podem mais contar com a combatividade e independência de sua direção sindical, representada pelo Sintaema. Isto vem ocorrendo desde 2002, quando o governo Lula ascendeu ao poder e a direção do Sintaema, assim como outras centenas de direções sindicais ligadas à CUT, passaram defender o governo federal em vez de lutar contra ele. No entanto, o pior ocorreu em 2014, quando a direção do PCdoB, partido dos principais dirigentes do Sintaema decidiram se coligar com o PSD/PMDB de Colombo e Moreira, e, após as eleições, avançaram ainda mais no que diz respeito a ocupar cargos no governo. Diante disso, os trabalhadores terão que cada vez mais fortalecer a “Oposição Luta Sintaema”, para que de fato seja travado um enfrentamento consequente e independente contra as politicas de privatização e desmonte da Casan.

Defendo uma Casan 100% pública, sob o controle dos trabalhadores, com uma gestão democrática, acabando com a gestão politiqueira, onde um número reduzido de diretores sejam eleitos pelos trabalhadores, tenho o mandato revogável. Defendemos também que o destino de 100% das verbas da cidade seja decidido pelos conselhos populares: organismos compostos pelas representações da classe trabalhadora que teriam, dentre outras atribuições, a função de discutir e decidir as prioridades da cidade desde o ponto de vista dos trabalhadores, votando políticas a serem implementadas.

 

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Publicado originalmente em PSTU Florianópolis

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por Visconde de Sabugosa às 23:38

Quarta-feira, 25.03.15

UM CONTO DE FADAS DA CLASSE TRABALHADORA

Era uma vez uma mulher que trabalhava em um supermercado e que sofreu um acidente de trabalho, foi para a perícia, fez uma cirurgia e, em decorrência das sequelas, não conseguiu mais trabalhar na antiga função que ocupara. Tentou por dois dias, sem sucesso, pois sentia muitas dores (era repositora).

 

Como o supermercado não registrou o retorno da mulher após o laudo da perícia, caracterizou desistência do emprego. Muito pobre, essa mulher contratou um(a) advogado(a) público(a), que acabou acordando à parte com a empresa contratante, boicotando assim o processo.

Essa mulher tem uma filha, bolsita que trabalha na UFSC, e um ex-marido que só paga a pensão da filha porque não sabe que esta tem um estágio. A bolsa finalizará agora em dezembro (ou janeiro) e amigos a ajudaram com uma contribuição de 450 reais, a famosa "vaquinha": muito choro, emoção, pois ao menos sabem que terão um natal mais ou menos.

 

Essa mulher está desempregada, desamparada, sem ninguém por ela, a não ser sua filha, que ainda estuda e não tem um emprego garantido. Essa mulher é apenas uma mulher, entre tantas outras... A diferença é que esta está próxima, muito próxima, em demasia, aumentando assim minha/nossa tristeza e minha/nossa indignação deste sistema corrupto, injusto, viciado e dirigido por uma mulher, filiada a um partido que nasceu na luta dos trabalhadores.

 

Choro, não sei se de raiva ou tristeza. Mas choro com força e com gana... Um sonho nunca morre. Que morra, sim, o capitalismo, já que não consegue, ele mesmo, resolver as contradições e injustiças que ele mesmo criou e vem acentuando. Que morra a burguesia enquanto classe!! Que Viva o Socialismo!

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por Visconde de Sabugosa às 20:24

Quarta-feira, 25.03.15

Via de mão dupla

Mentir não é problema

Minto vez ou outra, assumo

pois verdade-bem-contada

é mentira não realizada.

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por Visconde de Sabugosa às 20:01

Quarta-feira, 25.03.15

RELATO SELVAGENS: um doce veneno em tempos de cólera


Viver é muito perigoso – Guimarães Rosa.
 
 
Estreia nos cinemas da capital o filme argentino RELATOS SELVAGENS. Produzido pelo espanhol Pedro Almodóvar e dirigido pelo diretor e roteirista Damián Szifrón, esta produção de cinco histórias brinca com os cantos mais sombrios das almas de seus expectadores de maneira irreverente, sem jamais subestimar seus efeitos aterrorizantes.
 
Tendo como pano de fundo estórias aparentemente corriqueiras, as narrativas retratam a classe média argentina, com pontuais participações da classe operária como contraponto àquela. Ora hilário, ora espantoso, o filme desvela uma sociedade corrompida, que expõe desenvergonhadamente suas feridas e contradições. Como no caso da segunda narrativa, onde uma “simples” discussão de trânsito torna-se a caricatura da luta de classes levada a um outro patamar, por exemplo.
 
Tão somente isto já não seria pouco. Mas acrescenta-se às narrativas um elenco sólido e competente e temos aí uma produção sem medo de satirizar com o triste legado de nossa miséria humana. Em tempos tão raivosos quanto esses em que vivemos, lidar com a loucura da ira é mais que terapêutico, é também necessário.
 
Elenco: Rita Cortese, Ricardo Darín, Nancy Dupláa, Dario Grandinetti.

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por Visconde de Sabugosa às 20:00

Quarta-feira, 25.03.15

ENTRE O POPULAR E O ERUDITO: o universo mítico-religioso em Grande Sertão: Veredas

A familiaridade com as armas, com as lutas, com a religiosidade e com a inaptidão do homem ao inexplicável, aparecem já nas primeiras linhas de Grande Sertão: Veredas.
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Alvejei mira em árvores do quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro. Dum bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser ― se viu ―; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por perfeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão; determinaram ― era o demo.
 
Assim nos é apresentado o universo mítico do sertão criado por Guimarães Rosa. Já nas primeiras linhas, Riobaldo, o narrador, em um discurso de má-fé, como observa Telma Maria Remor Hilbert, adota uma postura de negação ao inexplicável. Isso porque a constante confluência entre mítico e real, entre superstição e racionalidade, entranhada na alma do personagem-narrador, o conduz para dois mundos distintos: o fantasioso e mágico, calcados sempre no universo mítico-religioso da cultura popular e o “racional”, distinto do primeiro.  Talvez por isso que em toda a obra perpassa muito da narração da vida interior do personagem-narrador. Riobaldo é tão constante e heterogêneo quanto o sertão que o cerca. Tudo neste é mágico e, concomitantemente, real e natural. O Sertão é uma confluência de elementos psicológicos e geográficos; há lugares fortes e especiais, ou seja, sagrados. Um dos mais representativos é Veredas Mortas (mais tarde Veredas Altas), onde Riobaldo faz o pacto com o Diabo.

Esse espaço natural e mágico é dividido pelo rio, que representa o limiar, lugar onde ocorre a passagem do profano ao sagrado: O Rio São Francisco partiu minha vida em várias partes. Essa divisão é, segundo Antonio Candido, categorizada da seguinte maneira: a margem direita a fasta e a esquerda a nefasta. “Na margem direita” ― diz Candido ― “a topografia mais nítida as relações mais normais. Margem do Grande chefe justiceiro Joca Ramiro; do artinhoso Zé Bebelo; da vida normal do Curralinho (…). Na margem esquerda, a topografia parece mais fugidia, passando a cada instante para imaginário, em sintonia com os fatos estranhos e desencontrados que lá sucedem. Margem da vingança e da dor; do terrível Hermógenes e seu reduto no alto da Carinhanha; das tentações obscuras; das povoações fantasmais; do pacto com o Diabo.”
 
Todavia, como se observa, Diadorim (que por si só é a junção do bem e do mal; do fasto e do nefasto; do lícito e do ilícito) e Riobaldo atravessam constantemente as duas margens, interagindo assim o real e o fantástico, e mudando o que a priori pareceria imutável: a natureza, o sertão conforme necessidade psicológica dos personagens: (…) sertão é onde o pensamento se forma mais forte que o lugar.
 
Ter-se-ia assim uma realidade mágica que se alterna e se mistura com a objetividade prosaica do mundo comum. Um mundo, um sertão, que entra em consonância com o universo mítico-religioso do sertanejo, alternando entre o real e o fantástico, conforme as necessidades de Riobaldo e seu bando, fazendo com que determinados lugares pareçam surgir como invenções, como projeções da alma. Tudo é real e, concomitantemente, mágico; desde a flora até a própria topografia. “Aos poucos vemos surgir um universo fictício, à medida que a realidade geográfica é recoberta pela natureza convencional.”
 
Há, como se observa, uma ambiguidade. E esta atravessa, em Grande Sertão: Veredas, todos os seus níveis: “tudo se passa como se ora fosse ora não fosse, as coisas às vezes são, às vezes não são (…) Nas linhas gerais, tem-se o conto no meio do romance, assim como o diálogo dentro do monólogo, a personagem dentro do narrador, o letrado dentro do jagunço, a mulher dentro do homem, o Diabo dentro de Deus.”5 A coisa dentro da outra. O sertão mitificado se entrelaça constantemente com o sertão “real”, a tal ponto ser muito difícil se estabelecer uma fronteira entre ambos. Tudo flui de maneira natural, dependendo do efeito que o narrador-personagem Riobaldo quer causar em seu interlocutor anônimo.

Dessa forma, segundo constata Leonardo Arroyo, “a literatura de Guimarães Rosa tem mais um sentido misterioso que um sentido absurdo, o que quer dizer que estaríamos, assim, diante de uma realidade mágica que se opõe a uma realidade objetiva, que reduz o racionalismo, ou a 'megera cartesiana', a uma categoria obscura, irrelevante, insignificante, no conteúdo de Grande Sertão: Veredas.”

Nos dizeres do autor, quer dizer então que o escritor Guimarães Rosa desprezava qualquer leitura feita de maneira mais “racional”? Obviamente que não. O que contesta Rosa, conforme Arroyo, é a crítica que assume um caráter assaz metodológico e cientificista (o que Guimarães denomina de “a megera cartesiana”), que subjuga o texto a determinados padrões estéticos-ideológicos, muitas vezes infundados, e que acabam taxando-o de obra “boa” ou “ruim”.
 
Perceba-se, entretanto, que a crítica subjetiva, desvalorizada de elementos críticos-metodológicos mais racionais, que acabam por fechar a obra em si mesma, fazendo que com pareça desligada de todo um universo histórico-social e literário, e também essa “outra” crítica “puramente” científica, que impõe um juízo de valor, um olhar, à obra, segundo este ou aquele viés, não explorando justamente os pontos em abertos que ela deixa para o “raciocínio lógico” e para uma maior apreciação sua, são questionadas sob essa perspectiva. Em outras palavras, tanto a crítica subjetiva, sem elementos críticos mais racionais, quanto a crítica que se intitula puramente científica, submetem à obra uma visão limitadora e, por isso mesmo, pré-conceituosa.
 
Assim, o que se questiona, não é o “pensar racional” e orgânico da crítica que visa à esclarecer, clarear, ao leitor, os pontos “obscuros” deixados pelo texto. Pelo contrário. O questionamento recai sobre essa ou aquela leitura que não causa “incomodação” necessária no leitor para que ele retorne à obra, intuindo um melhor diálogo com o escritor e com a própria literatura em estrito e lato senso. Essa, a meu ver, a função principal da crítica. Função que um bom crítico ― municiado de um aparato teórico oriundo de várias leituras e releituras que o propiciem as ferramentas necessárias para uma boa análise das obras, a dita “visão armada”, de Hyman ― certamente sabe exercer.
 
É o princípio organizador da crítica, este. Se a teoria não for capaz de causar este “mal estar” em quem a lê, não tem razão de ser. Assim, quando o crítico for analisar a obra de Guimarães Rosa, por exemplo, não basta superar as dificuldades impostas à consciência urbana atual; faz-se necessário, também, conhecimento das literaturas medieval e oral, conhecimentos históricos etc. Somente com este arcabouço teórico será capaz de superar as dificuldades impostas pela obra.
 
Ao tratar o sertanejo como tipo humano, Guimarães rosa não o faz somente por meio da “observação” e da “admiração”. Para superar esta visão, Riobaldo fala em seu nome. É o sertanejo falando de si próprio, de sua vivência, de sua vida. O personagem é quem narra a sua própria história, a história do seu bando e do seu amor proibido por Diadorim. Amor que atua sobre si (Riobaldo) de diversas formas, como ser verá.
 
Funcionando como arauto da passagem ― de Riobaldo ― de um estado natural para um estado de consciência, Diadorim o conduz à verdade e o coloca em constante provação; Eu tinha medo. Medo em alma. Para ser jagunço tem de ultrapassar a barreira do medo e se revestir de coragem. Daí as várias iniciações ― aqui no sentido de trajetória, caminhada ― praticamente todas conduzidas por Diadorim e que darão a Riobaldo o estatuto de corajoso, título que o fará, enfim, tomar o posto de chefe, cargo máximo de astúcia e coragem em um jagunço. Ele ensina para Riobaldo a poesia da vida, integrando-o à natureza. Abstrai o estrato sobrenatural, que escapa aos olhos do profano: Quem me ensinou a apreciar essas belezas sem dono foi Diadorim. Essa força propulsora é que levará Riobaldo a fazer o pacto com o Diabo. Essa sua força impulsionado por seu arvoado amor.
Por causa de Diadorim, no intuito de “juntar forças” e criar coragem para derrotar os hermógenes, é que Riobaldo invoca forças extraterrenas.

Isso acontece também porque Riobaldo é um homem sem certezas. Enquanto Diadorim tem a certeza do ódio pelo Hermógenes, assassino de Joca Ramiro, Riobaldo é desprovido de certezas. “Diz de si mesmo que diverge de todo mundo, que não guardava fé nem fazia parte. Presa de múltiplas dúvidas, recorre ao pacto com o Diabo para ser capaz de adquirir também uma certeza, que todas as pessoas ao seu redor têm.” De fato, após o pacto consegue caminhar em linha reta rumo ao objetivo.
 
Assim, perceba-se o quão explorada é a tradição cultural popular em Grande Sertão: Veredas. O misticismo popular, o pacto com o Diabo, a mulher que vai à guerra (esta mais ligada à tradição oriental, resgatando o poema épico chinês Mulan), o resgate das novelas de cavalaria etc. Todos esses temas se entrelaçam no romance, de forma tal que se confundem ao meio e às circunstâncias, passando a fazer parte deste e de seu cotidiano.

A narrativa de Riobaldo assimila, dessa maneira, elementos culturais provenientes de diversas fontes, ligando-se, por um lado, à tradição ocidental das novelas do ciclo arthuriano e, por outro, à cultura oral americana (entenda-se brasileira), herdada dos europeus e assimilada pela gente dessa terra, que à “miscigenou” com as culturas indígenas e africanas.

Procedentes da Europa, em especial de Portugal, cultos de caráter mágico encontraram no Brasil um ambiente fértil para a proliferação e o desenvolvimento. Aqui chegados os primeiros colonizadores portugueses, pouca resistência e nenhuma censura encontraram para desenvolverem esses cultos. Pelo contrário: uniram-se à paisagem humana autóctone constituída pelos indígenas num estágio cultural de terror cósmico que muito haveria de impressionar o colonizador com sua carga de cultura mágica. Esse encontro de culturas, adicionado às diversas outras da África, é o grande responsável pela formação substancial da estrutura mental desse novo povo. Aqui enriqueceram-se dos mais variados elementos, formando a genealogia do povo brasileiro.

Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos, alerta para esse fato, acrescentando que, em decorrência desse universo mágico em que a sociedade brasileira se formou e se desenvolveu, os séculos que precederam ao surgimento da energia elétrica foram épocas de grande medo. As crianças temiam a noite em decorrência dos “demônios” que andavam às soltas nas trevas para assombrá-las. A energia elétrica foi, em parte, responsável para que boa parte desse universo fantasioso fosse, de certa forma, desmistificado.

Ainda assim, muito sobreviveu deste tempo, em particular nas estâncias mais afastadas dos sertões brasileiros e nas comunidades mais isoladas do interior do país. E foi bem isso o que Guimarães conseguiu magistralmente captar em Grande Sertão: Veredas: o sertão por ele mesmo, escrito aqui tanto geologicamente, quanto mitificamente, constantemente recriado às necessidades psicológicas dos personagens. Tanto que o pacto com o Diabo, além de misturar elementos eruditos com populares, foi mais terreno, mais pragmático, mais conforme à “(...) fé do Diabo que acredita no destino humano vivencial, sem promessas de vida extraterrena ou de Paraíso no além-túmulo, mas apenas Paraíso na própria terra com os poderes que transmitia.” É como se o sertão agisse diretamente sobre Riobaldo e este sobre o sertão.
 
A acumulação cultural existente em torno do pacto com o Diabo alia, muitas vezes, o erudito e o popular e vice-versa. Já comentamos que a cultura popular trouxe novos elementos à realização do encontro definitivo entre o homem e o Diabo para a assinatura do acordo, como a exigência da encruzilhada, a existência de uma árvore, a hora má da meia-noite, etc.

Assim, fica ressaltada a predominância do valor metafísico-religioso em Grande Sertão: Veredas, valor que constitui o complexo formidável e a essência da cultura popular expressa dentro dos padrões tradicionais. Aliás, reportando-se mais uma vez a Leonardo Arroyo (p. 5), pode-se enumerar os critérios fornecidos pelo próprio Rosa para os críticos utilizarem na abordagem crítica de sua obra. São eles: a) cenário e realidade sertanejos, 1 ponto; b) enredo, 2 pontos; c) poesia, 3 pontos; d) valor metafísico-religioso, 4 pontos. Esses critérios são decorrentes da importância dada a cada uma das prevalências da inspiração e da intuição no trabalho de criação e composição. Como se observa, o valor metafísico-religioso é, para Guimarães Rosa, o critério mais importante de sua obra literária. Com relação a esses valores, veja o que afirma Arroyo:
Na relação de valores, indicada por João Guimarães Rosa, ajusta-se a lição de Montaigne quanto à condição humana e sua tentativa de julgamento nos ensaios intitulados “O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela ideia que deles temos”, “Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão” e “Da incerteza de nossos juízos”. No primeiro ensaio lembra Montaigne antigo aforismo grego, segundo o qual “os homens atormentam-se com a ideia que têm das coisas e não com as coisa em si”. Eis aí como se coloca a inquietação riobaldiana no centro e desenvolvimento da estória narrada do livro.
 
Curioso, no entanto, é o fato de o próprio escritor, segundo Arroyo, indicar as veredas em que a crítica deve percorrer para “fechar as lacunas” deixadas pela obra. É um adendo importante este, na medida em que comprova a preocupação de Guimarães Rosa para com as perspectivas de leituras, intuindo talvez evitar que a crítica dita qualificada caia no vazio.
Assim, o que se contesta, segundo esta perspectiva, não é o “pensar crítico” e racional, mas sim um discurso vago, vazio, desprovido de incômodo, oriundo talvez da ideia do “escrever difícil” que se enraizou entre nós através da fixação da tradição retórica, e que em nada condiz com um pensamento difícil porque profundo. O discurso teórico é fruto do desdobramento da reflexão crítica, ou, como afirma Compagnon, é a crítica da crítica, ou seja, uma metacrítica. Com um discurso que estimula e exige a formalização, a teoria da literatura, longe de aniquilar a emoção proporcionada pela “leitura desinteressada”, proporciona a chance de conhecer realidades doutro modo não captáveis. A formalização é apenas o meio por onde se faz lograr esse objetivo19.
 
Assim, a teoria serve de ponte, de elo de ligação entre a obra e seu interlocutor. Ajuda-o a “destrinchar” a obra, a preencher as lacunas propositadamente deixadas pelo seu autor. Contudo, ao contrário da obra, a crítica pode ser temporal, pois se enquadra dentro de um determinado modo de pensar, influenciada que é por ideias de seu tempo. Já a obra, quando de real valor artístico, torna-se deveras universal, pois, além de vislumbrar o mundo à sua volta, descortina a alma humana, que é, em suma, atemporal.
 
Eis o valor estético-artístico de Grande Sertão: Veredas: do lugar comum, exprime o universal presente em todas as culturas, em todos os lugares. Tanto que, independente da leitura que as gerações venham a fazer da obra (leituras decorrentes do zeitgeist, o conjunto do clima cultural e intelectual do tempo), sentir-se-ão tocadas por estes elementos universais que perpassam a obra. Assim não o fosse, Shakespeare ou Cícero não nos fariam mais sentido.
 
Assim, no que tange ao Grande Sertão: Veredas, optou-se por vislumbrar o seu universo mítico-religioso, pois é também por meio deste que se descortinam as principais angústias e alegrias do personagem Riobaldo. Visto assim, sob este prisma, temos Diadorim diretamente relacionado à água, elemento feminino pelo qual Riobaldo está perenemente ligado. Riobaldo, segundo ele mesmo afirma, lembra Diadorim como “minha neblina”, sendo esta a mistura de dois elementos opostos: a água ― elemento feminino ― e o ar ― elemento masculino. Elementos que agem atuando como elo de ligação entre o interno e o externo, o conhecido e o desconhecido.
 
Sob este prisma, as armas também têm um papel importante na narrativa, pois caracterizam o herói em conflito, e ele as usa para destruir o inimigo. Representam o perigo interior e seu estado de conflito. Simbolizam ainda funções e forças de sublimação e espiritualização. Riobaldo recebe, pela primeira vez, as armas por meio de seu padrinho, que lhe confere o título de jagunço. Depois é Joca Ramiro que, com as palavras de um mestre que sabe, que conhece o modo jagunço de ser, passa-lhe as armas: Tatarana, pêlos bravos (…) Meu filho, você tem as armas do conciso valente. Riobaldo, Riobaldo (...) Observe o tom ritualístico da cerimônia.
 
Sendo, contudo, a narrativa em Grande Sertão: Veredas repleta de digressões, quase circular em muitas vezes ― basta observar a quantidade de vezes com que Riobaldo narra a sua história no decorrer da narrativa ―, todas acrescentam um fator novo, uma nova “experiência”. Se assim o é com a narrativa, com o tempo não o é diferente. Do presente passa-se ao passado, e vice-versa, dando-nos a ideia do eterno retorno, da repetição das coisas. Essa leitura nos ajuda a compreender, e até supor, o final do romance como coisa aberta, sem fim. Daí o símbolo do infinito ∞ no desfecho da narrativa, indicando uma “continuidade eterna” dessa relação entre o jagunço e seu meio; entre o sertanejo e o sertão. Todavia, de seu estágio primário de simples sertanejo que é, até o estado de chefe de bando, de jagunço, o percurso é longo e tortuoso.
Tanto que, para percorrê-lo necessita de ajuda, de um mestre que o guie, que lhe mostre os caminhos a seguir. Esta ajuda encontra-a em Quelemém, seu compadre, que atua sobre Riobaldo como conselheiro, exercendo a função de Mestre em substituição ao mestre anterior (Diadorim) que, por não “transgredir” nenhuma regra do Sertão, mantem-se nessa posição até determinado grau.
Nessa longa narrativa, a voz do narrador flui num tom sério, denotando sua intenção sacralizadora, de tal modo que a não interferência da voz do ouvinte permite a Riobaldo a construção lenta de um mito. Nessa longa trajetória até o poder máximo, ou seja, até a obtenção do título de chefe entre os jagunços, Diadorim tem/teve grande importância. Desde sua prova iniciatória, no rio, onde ambos fazem a travessia, até a condição de chefe, Riobaldo dota-se de todo o poder. Todeschini assim descreve:
 
O fascínio pelo mistério acentua-se quando Riobaldo, tempos depois ouve a canção do Siruiz na fazenda do seu padrinho Selorico Mendes, durante a estadia de Joca Ramiro. A partir daí, seu destino será definitivamente traçado, vai buscar sua realização através das veredas do sertão. O canto que ele ouviu vai ser lembrado como frequência, acendendo-lhe a magia a cada lembrança. Esta canção tem um forte significado mítico, ligou Riobaldo à jagunçagem, esta ficou para sempre relacionada ao lirismo interior do herói.
 
Sob outra perspectiva, José Hildebrando Dacanal vê o sagrado ― aqui como mítico-sacral ― de duas maneiras distintas, diversas: uma referente à sua importância na estruturação da obra, podendo ser qualificada como
“problemática demonológica” de Riobaldo; a outra, pela subjetividade que apresenta, pode-se denominar de “crendices e superstições”, esta calçada sempre na dúvida quanto à existência ou não do Diabo. Por isso que, como narrador, sempre com uma visão de mundo agnóstico-existencial, própria de um plano existencial lógico-racional, Riobaldo nega a existência do Demônio.
 
Segundo ainda Dacanal, Riobaldo almeja ser como Hermógenes: destemido e rico, enfim, um eleito acima do bem e do mal. Entretanto, por ser este o pactário, Riobaldo age de maneira sobranceira, sendo definitiva somente mais tarde, à sombra de Diadorim, a confusa efervescência das suas forças interiores.

Assim, dá-se a entender que Diadorim aparenta ser, para Riobaldo, um porto seguro, um ponto de apoio, onde se firmará até que esteja garantido seu estado de maturidade como jagunço, alcançado, enfim, em Veredas Mortas. Na verdade, é bem mais do que isso. Diadorim é a ponte que liga Riobaldo a dois sertões distintos: o bem e o mal, o real e o mítico. Sertões, como já visto, também oriundos do estado psicológico do herói. Diadorim é quem “arrasta” Riobaldo a Hermógenes e, consequentemente, a Veredas Mortas e a seu estado lógico-racional. Diadorim é sua força motriz: Diadorim, o Reinaldo, me lembrei dele como menino, com a roupinha nova e o chapéu de couro guiando meu ânimo para se aventurar (n)a travessia do Rio do Chico, na canoa afundadeira. Esse menino, e eu, é que éramos para dar cabo de filho do Demo, do Pactário! O que era o direito que se tinha. O que eu pensei, deu de ser assim.

A partir desse momento, Riobaldo inicia a derradeira etapa de seu objetivo como um predestinado, embora perpassado por uma névoa, que encobre sua consciência e que será extinta somente no momento em que chega e compactua com o Demônio em Veredas Mortas. Isso ocorre porque, no plano psicológico e temporal do passado, a possibilidade do pacto faz parte do mundo Riobaldo/jagunço. Pacto que atua como mola propulsora para a conquista de tudo o que almeja.
 
Contudo, se no passado este pacto é consolidado, no plano presente ele o nega. E isso porque, se assim não o fizesse, poria em xeque sua própria narração, negando, dessa forma, sua capacidade de organizar seu passado de forma lógico-racional. Para o narrador Riobaldo, a negação da existência do Diabo é necessária e vital, e por isso lógica.
 
O drama de Riobaldo é, na verdade, o de “simplesmente ter aceito no passado a possibilidade da existência do Demônio e ter alcançado, depois de Veredas Mortas, um plano consciencial que o obriga a negar aquela possibilidade.” Isto é, a travessia de Riobaldo foi o salto qualitativo antes mencionado.
 
Este estado de consciência plena, contudo, só ocorre após sua chegada às Veredas Mortas. Ao tentar vender sua alma, ele a comprara ― diz Quelemém. Ou seja, libertara-se dos terrores mítico-sacrais, dando início a uma caminhada que o levaria a uma visão de mundo agnóstico-existencial.
 
Essa é, contudo, uma das duas maneiras de se ver, sob esta ótica, o mítico-sacral dentro de Grande Sertão: Veredas. A segunda, ocorre no nível do presente, já em um plano agnóstico-existencial-racional do narrador-personagem.
 
Ao debater-se com o doutor em sua casa, Riobaldo, que ausentara-se por ter sido chamado a sacrificar um bezerro branco desfigurado, do qual (…) Mesmo que, por perfeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão, determinaram ― era o demo, senta-se e explica a causa dos disparos de carabinas há pouco ouvidos. Para Riobaldo narrador, o Demônio ― como entidade real ― não existe, é doideira, fantasiação, superstição, um anti-valor da ignorância crassa do povo prascóvio, o que vem a comprovar o salto ocorrido em Veredas Altas.
 
Entretanto, o fato de Riobaldo renovar o ataque a essas crenças (O Pacto! Se diz ― o senhor sabe, bobéia) procede de uma “defasagem de estruturas conscienciais entre ele e o mundo que o cerca, no qual não consegue manter um diálogo, excetuando com o Quelemém e com o próprio doutor, que não participa da narrativa. Essa defasagem não é nada mais que a distância qualitativa entre o plano de estruturas conscienciais mítico-sacrais no meio em que vive e o plano consciencial alcançado em Veredas Altas.” Dessa maneira, como entidade real, o Demônio não existe para Riobaldo narrador, a não ser como elemento a ser negado. Por outro lado, parece óbvio que o Demônio exista para Riobaldo como elemento simbólico, como personificação do mal, inerente que está à condição humana, no próprio mundo.
 
Na concepção do narrador, “o Diabo vive dentro do homem, mas também vive dentro de todos os seres da natureza ― até mesmo os inanimados, como o vento e a pedra. Tudo se passa como se o cosmos fosse Deus, princípio positivo, mas admitindo a existência de um princípio negativo que leva o nome de Diabo.”27 Da permanente disputa entre outros nasce a frase: Viver é muito perigoso.
 
Assim, o fio do enredo é o tormento do narrador por ter vendido a alma ao Diabo. Esse fio atravessa todo o romance, se estendendo do início ao fim da narrativa. O que Riobaldo narra é, em suma, os antecedentes que o levaram a compactuar com o Diabo e os reflexos que esse impacto causou em sua vida e de seus companheiros. Pacto este já “premeditado” pelo próprio narrador, que vê na venda de sua alma o impulso que faltava para enfrentar Hermógenes. Isso porque, embora ache justa a vingança, não tem nisso tanto empenho quanto Diadorim. Ou seja, a empresa não é de Riobaldo. Somente por meio do pacto com o Diabo adquire a certeza necessária para continuar a empreitada. Somente após o pacto a necessidade de matar o Hermógenes se torna latente.
 
Entretanto, este pacto que o encorajara, dando-lhe a certeza que precisava para dar cabo ao Hermógenes, é o mesmo que acaba levando Diadorim à morte:
Riobaldo acaba com Hermógenes, mas no mesmo ato Diadorim morre. Afinal foi Riobaldo o instrumento da morte: ele, adquirindo mediante o pacto a certeza de Diadorim e eficazmente pondo-a em prática, conduziu-o para a morte. Daí a culpa que mencionou desde o início da narração: culpa de ter vendido a alma ao Diabo e ter levado o amigo à morte.
 
O Diabo cumpre o prometido com as tramoias que a tradição lhe atribui, e da forma mais dolorosa possível: acabando com a vida de Diadorim.

Acabaram-se confirmando os ditos do narrador: o diabo está em todos os lugares e não está em lugar nenhum. Enquanto elemento simbólico existe e pode estar na rua, nos seres inanimados, nas pessoas, no vento (o diabo na rua no meio do redemoinho...), porém, enquanto entidade real, que possa ser explicada de uma maneira lógico-racional, o narrador o nega. E o faz por dois motivos: 1) para negar a existência a existência de um pacto entre ele e o Diabo e 2) para não por em xeque sua narração. É dessa disputa entre o existir e o não existir que recai também a culpa de Riobaldo.
Mesmo aparecendo seguidamente na obra (ou talvez mesmo por isso), essas crendices e superstições “contaminam”, até certo ponto, o narrador, por estar em contato direto com um mundo social repleto de simbologias e mitos que remetem diretamente àquelas. É como afirma Antonio Candido: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e pelo nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico, ― tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro à matriz regional para fazê-lo exprimir os grandes lugares comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte ― para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o Sertão é o Mundo.”
 
REFERÊNCIAS
 
ARROYO, Leonardo. A cultura popular em Grande Sertão: Veredas. se. Rio de Janeiro: José Olímpio. Brasília: INL, 1984.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria> literatura e censo comum (Tradução de Clarisse Paes Barreto Mourão e Consuelo Santiago). 1.ed. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000.
CANDIDO, Antonio. O Homem dos avessos. In: Tese e antítese.
CASTELLO, José Aderaldo. Guimarães Rosa ― Grande Sertão: Veredas. In: CASTELO, José Aderaldo. A literatura brasileira ― origens e unidade (Vol. II). se. São Paulo: Editora da USP, 1999.
DACANAL, José Hildebrando. A epopeia de Riobaldo. In: DACANAL, José Hildebrando. Nova narrativa épica no Brasil. 22.ed. Porto Alegre: Mercado Abertom 1988.
GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.
HILBERT, Telma Maria. Grande Sertão: Veredas: a defesa (um discurso de má-fe). In: Travessias no 15 Revista de Literatura Brasileira. Florianópolis: Editora da UFSC, 1987, p.50-58.
LIMA, Luiz Costa. Quem tem medo de teoria? In: Dispersa demanda (ensaios sobre crítica e teoria). se. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1951.
TODESCHINI. Maria Thereza. Aragem do sagrado. In: Travessias no 15 Revista Brasileira de Literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1987, p.61-68.

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por Visconde de Sabugosa às 17:16

Sexta-feira, 18.07.14

Uma Reflexão antes de ir dormir

Vivo escutando por aí que qualquer coisa fora do capitalismo é utopia, que destruí-lo para construir um mundo diferente é utopia, que o socialismo é impossível. Porém, fica cada vez evidente que utópica é a ideia de que @s trabalhador@s podem viver com dignidade no capitalismo. Está mais do que provado (e a crise econômica cada vez mais aguda exporá ainda mais as cicatrizes e contradições do sistema) de que a lógica do capital significará a inanição da maioria absoluta da humanidade e de que todos aqueles medos que já pensáramos superados (guerras seguidas, crises agudas cíclicas, regimes totalitários, como ditaduras bonapartistas e o nazi-fascismo...) retornarão invariavelmente se esta lógica não for quebrada. E se hoje mais de um bilhão de pessoas vivem com apenas 1 dólar por dia, outro 1 bilhão com 2 dólares por dia e tantos outros 2 com até 8 dólares por dia, amanhã esta cifra aumentará, e muito, mas muito mesmo. Isso sim é uma utopia: acreditar em um mundo melhor sob esta lógica contemporânea. Pobreza é bom somente para quem se aproveita dela, para mais ninguém. Gosto de fatos, de estudos, não de obscenidades mentais, crendices fantasiosas. Já há videntes demais no mundo!! É preciso olhar o mundo sob um viés mais crítico, experimentá-lo, acertar e errar suas tentativas. É preciso entender o passado sob a perspectiva não somente da história oficial, não somente do presente, que é completamente unilateral. Vejo muita gente falando uma porção de coisas, utilizando uma porção de "conceitos" porque um dia ouviu falar de alguém que ouviu falar de alguém algo ou alguma coisa. Assim falam isso ou aquilo do socialismo, tendo como base os estados totalitários do leste europeu e a es-URSS, sem nunca terem visitado um livro sequer de Trotsky (quem sabe A REVOLUÇÃO TRAÍDA para começar?); dizem que Marx foi um assassino, um invejoso..., porque ouviram de alguém. Nem sequer foram capazes de abrir um de seus livros ou de Engels, ou ler os grandes clássicos dos marxistas honestos para comprovar aquilo de que tanto ouvem falar, ou até então para tentar entender o desenrolar da história. Sequer sabem quem foi Kolontay, Rosa Luxemburgo, dentre outras... E Arte? Credo, isso é coisa de comunista, de gente à toa, que não quer trabalhar, que não é ambicioso. Abominam-na como o diabo foge da cruz. Há muita vulgaridade no mundo, e não é de hoje; no século XIX os puristas afirmavam que Darwin dizia que o homem vinha do macaco; hoje, além de reiterarem este argumento, acusam de comunistas todos aqueles que agem diferente de uma determinada lógica, de um determinado jeito pronto-acabado de agir, mesmo sendo os mais reacionários. Para estas pessoas, não se tem o direito de pensar, de analisar, de discutir e, muitas vezes, nem sequer o de tentar. O que se é permitido é prostituir, (re)produzir, consumir coisas prontas, trabalhar, orar; afinal de contas, o que é o homem sem o sexo (nem que seja "comprado"), o ser-humano sem o divertimento (industrial, de massas), sem o trabalho (alienado) e sem a oração? Ainda bem que o velho e bom Hegel não estava certo; ainda bem que as ideias não determinam o meio, mas este as ideias. UFA!!

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por Visconde de Sabugosa às 05:22

Quarta-feira, 30.04.14

A DITADURA CÍVICO–MILITAR EM SANTA CATARINA

Por Tarcisio Eberhardt – anistiado politico pela comissão da verdade e militante do PSTU

 

O ANIVERSÁRIO DE 50 ANOS DO GOLPE MILITAR, que instalou no Brasil uma ditadura em 1964, tem gerado um importante debate. E não trata-se um de “mero” debate histórico-acadêmico, ou apenas uma recordação de um triste período de nossa história. Ele faz parte de uma luta atual. Por isso ressurge com força a luta pela revogação da lei da anistia, criada pela própria ditadura, para impedir a punição aos torturadores e demais agentes da repressão, que cometeram toda espécie de crimes bárbaros. É inadmissível que depois de mais de 11 anos de governos do PT, e em especial de quase três anos do governo de Dilma, ela mesma uma vitima de tortura, que o Brasil continue a ser o único país da América Latina em que não houve qualquer punição aos autores e mandates das atrocidades cometidas durante a ditadura.

 

 

Também é necessário que todos os ativistas das grandes lutas que voltam a ocorrer no país desde junho do ano passado conheçam melhor esse história, para dela tirar conclusões que sirvam para nos armar diante de futuras tentativas da classe dominante de nos calar com algum golpe ditatorial. Temos que ter claro que a ditadura instaurada em 64 foi para impedir os trabalhadores, juntamente com os setores populares, de avançarem nas suas lutas, garantindo o total domínio das grandes empresas capitalistas e do imperialismo estadunidense sobre nosso país. Por isso, dizemos que se trata de uma ditadura cívico-militar, pois foi uma ditadura dos grandes empresários, banqueiros e das multinacionais.

 

E esse é um dos aspectos que mais se destacam aqui no estado. É total o apoio dado pelos grandes empresários, e seus meios de comunicação, à ditadura. Mesmo antes já estavam totalmente engajados nos preparativos do golpe, patrocinando uma intensa campanha em apoio a sua realização. Nisso se destacam os Jornais “O Estado”, de Florianópolis; “A noticia”, de Joinville e a “Tribuna Criciumense” (faz-se necessário lembrar que na época não existiam o DC e o Jornal de SC). No grande empresariado o apoio foi tão efetivo que em Joinville, por exemplo, o dono da poderosa fundição Tupy paralisou a produção e discursou para os funcionários, almejando comemorar o golpe. Antes, as empresas já haviam dispensado os funcionários para participar da Marcha pela Família, ainda em abril de 1964.

 

É interessante notar

que, além da fundição, a Tupy era dona da famosa escola técnica que leva ainda o mesmo nome. Talvez por isso, dentre os primeiros presos pela ditadura na cidade, quatro eram estudantes secundaristas que, enquadrados como criminosos por protagonizarem uma campanha pela criação de uma escola pública de ensino médio, pois na cidade de Joinville não havia nenhuma instituição pública de ensino até 1963, quando conseguiram a instalação do Colégio Celso Ramos. Ao que parece, a escola particular da Tupy não gostou dessa concorrência e os militares, por meio do 4 BIM, “deram o troco”, prendendo esses perigosos subversivos.

 

Entramos aí em outra questão fundamental para entendermos a ditadura e desmascarar seus defensores. As prisões começaram já nos dias seguintes ao golpe. Não é verdade a fábula de que as prisões arbitrárias e as torturas seriam uma reação do regime à luta armada contra a mesma. Também é necessário deixar claro que a repressão atingiu fortemente os trabalhadores no estado. Dos presos em Santa Catarina, a maioria eram trabalhadores. Portanto, outra mentira dos militares vai por água abaixo: a de que a oposição à ditadura era obra apenas de estudantes e intelectuais. Por mais valorosa que foram as lutas dos estudantes, em especial os de Florianópolis, contra a ditadura, ela se abateu principalmente sobre as lideranças sindicais e advogados ligados ao movimento.

 

Foram atacados, em especial, os dois mais combativos sindicatos operários de Santa Catarina, o de mineiros, de Criciúma, e o Sindicato dos Portuários, em Itajaí, São Francisco do Sul, Imbituba e Laguna. Estes não apenas sofreram prisões sistemáticas de seus dirigentes, como também tiveram sucessivas intervenções em que as diretorias eleitas pelos trabalhadores eram tiradas dos sindicatos, pondo, em seus lugares, agentes do governo, que muitas vezes tinham treinamento especial de agentes da CIA. Assim, as diretorias de sindicatos passavam a ser compostas por agentes da repressão à serviço da polícia e da patronal. Por fim, para garantir ainda mais a submissão dos trabalhadores, recorreram a mais outro expediente contra esses sindicatos: dividiram-no. Ou seja, invés de um só representando toda a categoria, dividiram em vários, para enfraquecê-los ainda mais.

 

A repressão ao movimento estudantil foi particularmente forte em Florianópolis. O prédio da União Catarinense dos Estudantes foi invadido pelos militares em 1964, 1968 e 1979. Outra instituição palco da repressão na cidade foi a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professores e alunos foram presos em 1964, 1968, 1969, 1975, 1977 e 1979.

 

Porém, houve outros ataques impressionantes já no inicio da ditadura, período em que a direita tenta mostrar-se como sendo ainda artífice de um regime civilizado. Em Florianópolis foi a queima de livros pelos militares na Praça XV. Ali, na esquina da praça com a Rua Conselheiro Mafra, onde hoje é uma farmácia, havia uma livraria. Seus donos eram intelectuais, como o escritor Salim Miguel. Nada de especial havia nesta livraria, apenas um dos sócios era filiado ao PCB. No entanto, ela não escapou à sanha dos golpistas. Seus livros foram jogados na rua e incendiados e seus proprietários presos. Fato esse muito semelhante às práticas do nazismo/fascismo. Basta lembrar a frase que foi uma dos símbolos do nazismo " Quando ouço a palavra cultura, saco logo meu revólver".

 

Outro episódio aterrador foi o assassinato de Higino João Pio, Prefeito de Balneário Camboriú. Este prefeito aparentemente não deveria despertar nenhum interesse especial aos ditadores, pois foi eleito por um partido burguês normal, o PSD, que nem sequer era um partido que abrigava a esquerda, como o PTB. No entanto, por causa de sua oposição aos golpistas, tentou-se cassar seu mandato pela câmara de vereadores, não obtendo êxito. Então conseguiram de seus amigos militares que este fosse preço e torturado. Saiu direto de seu gabinete, levado pela polícia federal, para ser morto sob tortura na Escola de Aprendizes da Marinha, em Florianópolis.

 

Esse episodio não é chocante apenas pela brutalidade absolutamente desnecessária, que nisso lembra o caso de Vladimir Hersog. Mas também pelo silêncio e pouco conhecimento que é dado a ele em nosso próprio estado. Nesse sentido, difere do caso de Hersog, que se tornou o assassinato mais conhecido da ditadura. Isso só vem a comprovar que, no que depender da grande imprensa daqui, nada de importante contra a ditadura será averiguado.

 

Com o desenrolar da ditadura e a continuidade da repressão, seguia sem ocorrer aqui um único foco de guerrilha, ou mesmo alguma ação da luta armada. Mesmo assim, em novembro de 1975, é criada a “Operação Barriga Verde”. Ela foi inspirada na “Operação Bandeirantes”, de São Paulo, uma operação montada a partir do aparato policial militar e dirigida pelo sinistro delegado Sérgio Fleury. Esta operação foi responsável pelo assassinato de inúmeros lutadores e a brutal tortura de mais centenas e centenas de militantes.

 

Aqui não há dados disponíveis sobre a convivência financeira entre a operação Barriga Verde e os empresários. Todavia, isso não quer dizer que ela não tenha ocorrido, pois, como é de conhecimento público, não somente as operações especiais foram financiadas pela burguesia brasileira, através de grandes empresas, como Bradesco, Rede Globo etc, mas toda a ditadura em seu conjunto. Esse episódio ainda foi muito pouco estudado e os arquivos dos órgão de repressão mais importantes do estado ainda não foram abertos. Há de se perguntar, por exemplo, porque a marinha tem tanto zelo em manter em segredo os arquivos do Cenimar, que foi quem comandou a repressão no estado. O que contém esses arquivos continua sendo um mistério.

 

A operação Barriga Verde combateu com fúria não somente “perigosos guerrilheiros”, mas também quase imperceptíveis filiados ao PCB, pois os que militavam com frequência, assim o faziam de forma legal, na construção do MDB (atual PMDB). O Partido Comunista Brasileiro, de orientação pró-Moscou (Stalinista), teve uma política de conciliação de classes durante todo período anterior ao golpe de 64. Já não bastasse isso, ainda desmobilizava sistematicamente qualquer tentativa de impedir, por parte dos trabalhadores e da juventude, a organização contra o golpe, afirmando que deveríamos confiar nos oficiais democratas, que eles impediriam a derrubada de Jango. Essa traição do PCB lhe custou caro não somente pela forte repressão que sofreu durante a ditadura, mas também pelos inúmeros “rachas” e “quebras” de militantes como reflexo da sua politica.

 

No entanto, aqui no estado, e em especial em Florianópolis, eles conseguiram manter-se com um relativo peso, e por isso foram alvos da repressão durante a “Operação Barriga Verde”, que prendeu 42 de seus militantes. Após isso, o medo se instalou em todos os setores de esquerda e mesmo setores democráticos, sendo um período terrível para qualquer militante anti-ditatorial. Isso só vai se modificar com a entrada tempestuosa em cena do movimento estudantil, apoiado massivamente pela população, no famoso episódio que ficou conhecido com “A Novembrada”.

 

Neste episódio, a ditadura mostrou que, apesar de já estar enfraquecida, ainda queria utilizar a repressão selvagem. Cinco dos participantes do movimento foram presos e sete enquadrados na espúria “lei de segurança nacional”. No entanto, pela enorme repercussão que teve esse acontecimento depois de vários anos de ameaça, a ditadura não conseguiu condená-los devido à forte campanha na defesa dos companheiros.

 

Gostaríamos de terminar esse artigo dizendo que ele teve um ponto final na incrível campanha das “diretas já”, que em nosso estado e, principalmente, em Florianópolis, foi algo nunca visto antes em nossa história. Contudo, o fato de os torturadores e mandantes continuarem impunes, protegidos pela lei que os alto anistiou, faz com que essa prática de torturas continue a ser extremamente usada nas delegacias e presídios do estado. Isso se tornou amplamente conhecido, há pouco tempo atrás, no episódio de tortura em massa no presídio de São Pedro de Alcântara, sendo também uma prática cotidiana nas delegacia, atingindo, muitas vezes “suspeitos”, que, na verdade, têm como único crime a pobreza, a cor da pele (são negros em sua maioria) e o endereço: moram em favelas.

 

Além disso, assistimos à escalada de criminalização dos movimentos sociais, chegando ao ponto de, sob um pretexto absurdo, justificar a invasão da policia federal em nossa Universidade Federal com requintes que em tudo lembraram a ditadura, sendo, inclusive, os defensores da universidade ameaçados de serem enquadrados na mesma lei de Segurança Nacional da ditadura, que por sinal continua vigente. É essa impunidade que faz com que qualquer facistóide do aparato policial militar se sinta no direito de, como dizia o ditador Figueiredo, “prender e arrebentar”, pois a impunidade lhes dá esta garantia.

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por Visconde de Sabugosa às 02:02

Sábado, 25.01.14

FIM DO CERCO AO CAMPO DE REFUGIADOS DE YARMOUK

O Comitê local do Campo de Refugiados Palestinos de Yarmouk, situado na capital da Síria, convoca para este sábado, dia 25 de janeiro, um dia global de solidariedade e luta contra as terríveis condições que o regime de Bashar Al Assad impõe a seus habitantes.

Yarmouk é o principal campo de refugiados palestinos na Síria. Formado em 1957, produto da expulsão do povo palestino, chegou a abrigar 250 mil pessoas entre refugiados palestinos e sirios. Com o tempo, Yarmouk se transformou em um importante bairro de Damasco.

Desde o início da Revolução, em março de 2011, Yarmouk é um centro ativo de apoio à Revolução, provendo ajuda humanitária aos rebeldes e participando das manifestações contra o regime sírio. Em pouco tempo, todo o campo de refugiados integrou-se à dinâmica revolucionária contra Assad, além de manter sua posição radical a favor da libertação da Palestina.

Em resposta, o regime sírio prendeu e torturou centenas de ativistas e, mais recentemente, cercou o campo e passou a bombardeá-lo pesadamente. 1.800 palestinos foram assassinados. A maioria dos residentes fugiu, mas ainda há algo em torno de 20 mil palestinos. O campo é controlado pelo Comitê de Coordenação Local e forças do Exército Livre da Síria.

O cerco criou uma situação terrível, com subnutrição generalizada, fim de medicamentos, fornecimento irregular de água potável e energia elétrica.

Não temos dúvidas de que o ditador Bashar é quem impõe o cerco e por isso nos recusamos a adotar o discurso de neutralidade, o mesmo adotado por Israel para justificar o cerco contra os palestinos da faixa de Gaza.

Nós repetimos junto com os palestinos de Yarmouk: Os palestinos e sírios somos um só! E somente sua unidade histórica pode derrubar a ditadura síria e o estado racista de Israel!

Este dia 25 de janeiro também marca o terceiro aniversário da revolução egípcia. O PSTU e os seus partidos irmãos da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-IV Internacional) participarão desta atividade em solidariedade incondicional à Yarmouk em todo o mundo, como parte da defesa da revolução síria e palestina e também nos manifestamos em defesa da revolução egípcia.
·        Fim do cerco criminoso à Yarmouk!
·        Fora Bashar! Pela vitória da revolução síria!
·        Pelo fim do Estado racista de Israel! por um Estado Palestino laico, democrático e não racista!
.       Todo apoio à revolução egípcia!

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por Visconde de Sabugosa às 12:28


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