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BLOG do VISCONDE



Domingo, 03.07.11

TESTAMENTO

Les yeux sont aveugles, il faut chercher avec le couer.

Antoine Saint-Éxupery

 

Nunca me permiti desfrutar do honrado direito à preguiça. Só, vivi minhas esperanças de maneira egoísta, encastelado nesta redoma em que envolvi minha vida e que me impermeabilizou do mundo a minha volta. Só, arrastei meu viver: com pouca astúcia, me preocupei com minha carreira e com o meu trabalho e claudicando caminho com parcimônia, qual uma criança amedrontada. Os labirintos de minha alma não consigui desvendá-los, jamais logrei sequer vislumbrá-los. Minha história poderia ser contada dos seus acasos, dos momentos fortuitos em que esbocei um sorriso sincero, das poucas vezes em que, com voracidade, presenciei com alegria o lusco-fusco de um final de tarde. Tal qual o mau vidraceiro, aquele mesmo de Baudelaire, não deixo transparecer o lado belo e poético da vida. Minha aura é branca como a cegueira.

Ainda assim, me considero um sujeito (in)fortunado. Porém, minha sorte não deriva do que foi minha vida, não do que senti ou experimentei, não do que presenciei. Minha ventura é o seu inverso na essência: é a similitude do meu testemunho; do que eu poderia ter sido e não fui; do que eu poderia ter vivido e não vivi. É a consciência, de minha parte, dos sabores que deixei de experimentar, das delícias da vida que deixei de aproveitar... Minhas amarras eu mesmo as construí. Na masmorra em que foi minha vida, eu mesmo me deixei entrar. E por isso, não posso me queixar, pois sempre logrei o que almejei. Minhas metas e objetivos sempre os alcancei, pois sempre tive o direito de lutar pelos meus parcos sonhos. Quantos tem esse direito?

Revisitando o meu passado, relembrando o que não fui, percebo o quão fugaz é a vida e o quão relutante é o tempo. Passam-se horas, dias, os meses e os anos, sisados, esfacelados pelos vorazes segundos que regem o relógio do pai-tempo. Quantos dissabores! Quantas ilusões! Para que tantas leituras, tantas metas, tantas fórmulas aritméticas, se não me permiti ao menos provar do sabor acre-doce da vida? Se não me permiti experimentar suas agruras, seus sobressaltos, suas rusgas, seus lampejos de felicidade?

Nossa vida pode ser contada em poucas palavras, os escritores é que tem a mania de encompridá-la. Eis meu enredo: vivi no luxo, cercado de amigos que me esqueceram, em voltas com bebidas e festas aos finais de semana; sempre trabalhei, pois sou fiel à ideia de quem não trabalha nunca alcança – o que não me foi de todo mal enquanto gozei de boa saúde. Todavia, se uma criança simples me perguntar como é o ocaso da primavera, ou como é passear com meu filho por um parque numa manhã ensolarada de sábado, não saberia lhe responder, pois não me dei o direito de desfrutar das coisas mais singelas da vida. Ademais, sou seco feito uma pedra: não repassei a ninguém minha herança miserável... Mas quem alcança tudo o que deseja nessa vida? Certa vez li em algum livro, algum almanaque, sei lá, que o real sentido da vida, o savoir vivre, que seu espectro e seu segredo não estão no seu prolongamento, no alongamento compulsivo de nossa idade corpórea, mas no sentido que damos aos poucos momentos em que nos são reservados à Felicidade. Em suma, como diria compadre Nestor, “a vida é feita de bons momentos”. Eis sua virtude, sua essência; eis a única maneira de tornarmos nossa existência menos degradante.

Há pessoas que não raspam a casca do tempo com medo de descobrir o que há dentro. E talvez por isso mesmo que eu seja um (in)fortunado, pois enxergo hoje o que não vira outrora. Todavia, bem sei que sou cego e que meu coração está fechado, e que esse fino e misterioso invólucro que esconde o tempo, nada mais é que uma reles peça de teatro, dividida em atos, cujo introito e o cabo são difíceis de delimitar. Se nada mais tirasse eu da vida que essa tacanha lição, ainda assim me consideraria um sábio. E mesmo que eu atravesse a Eternidade desejoso de desvendar em vão o mistério dos séculos, a história do mundo, o limiar do universo, ainda assim me considerarei um sábio.

Fui meu algoz. Vivo-me repetindo: “Sou meu algoz!” Arrastei minha vida na esperança vil de que o tempo me traria a bonança, a tranquilidade terrena. Contudo, não notei que estava alimentando a tempestade que se tornaria minha existência. E agora, fatigado, respiro aliviado, com a serenidade infantil de um velho à beira da morte: a velhice é o momento de reconciliação do homem com o mundo; a simbiose perfeita entre o ser e o seu ethos. Na velhice o homem se torna mais doce e afável, aproximando-se gradativamente da simplicidade e beleza infantis. Eis minha sensação hoje da velhice; eis a ideia corporificada de como eu poderia ter sido, não fosse minha patia. Eis a sensação que se tem quando se está face a face com a morte. Tivesse eu forças para clamar por meu epitáfio, afirmaria, em letras garrafais: “vislumbrei com os olhos o que fui incapaz de sentir com o coração, e aí pousou minha infelicidade”. Abro os olhos da alma no momento em que me fecho para a Vida.

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por Visconde de Sabugosa às 23:34



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