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BLOG do VISCONDE



Quarta-feira, 13.07.11

UM CAUSO VERÍDICO*

Hoje, quando vinha para o trabalho, avistei, de dentro do ônibus, caminhando tranquilamente na rua, o Seu Pedro. Sempre muito solicito e elegante, com uma postura de por inveja em um lord inglês, trafegava calmamente pela rua geral aqui do Saco Grande, nas proximidades do banco do Brasil. Como eu gosto muito dele e o acho um companhia agradabilíssima, resolvi puxar a campainha do ônibus e saltar no ponto mais próximo. Nem precisei chamá-lo, tendo em vista que ele mesmo me viu saltando e veio ao meu encontro.

Com mais de 70 anos, aposentado por uma dessas repartições públicas do governo estadual e recebendo uma renda extra como mecânico autônomo, é desses velhos viúvos (como tantos aqui na ilha) que curtem a vida passeando e dançando nos bailes-matinês da cidade. Assim que eu o cumprimentei: – Bom dia, Seu Pedro!, já o notei com um ar alegre e jovial, típico daquelas almas de bem com a vida. Contudo, algo mais transparecia na figura daquele “bom senhor sacana”, pois um sorrisinho safado no canto da boca denunciava algo não contumaz em sua persona. Notando isso o indaguei:

 — Qual é a boa, Seu Pedro? Estás indo ao banco?

Estou sim, querido. Preciso sacar um dinheiro na boca do caixa, pois meu cartão está com problemas. É que preciso pagar o conserto dos amortecedores dianteiros do meu fusca, que eu quebrei ali na Palhoça.

E quanto vai lhe custar essa brincadeira, senhor?

160 cruzeiros.

Embora tivesse que desembolsar essa quantia em reais de seu ordenado – dinheiro não planejado nas despesas do mês – o notara muito orgulhoso em me contar isso. Em vista disso, querendo provocá-lo, continuei a conversa...

Aposto que o quebraste num desses bailões que o senhor anda por aí, né!?!

Pois é, foi isso sim. Tava com um carro cheio de coroas, guri, e o fusqueta me deixou na mão.

Mas também, né, Seu Pedro... o senhor não cuida do menino. Logo um mecânico aposentado não cuidar do seu valente carro, que o leva para tudo quanto é buraco. Me admiro do senhor...

Não é isso não, meu filho, é que me meti com umas coroas num bailão lá no meio do mato, próximo à enseada do Brito. Tava com três coroas e meus planos era levar uma pra casa depois do bola-bola. Mas aí aconteceu isso e não deu mais nada certo.

E como ficaram as coisas depois disso, senhor? Não ficaram, né. Não usei a baguinha azul. Fazer o que...!!

Narrando-me com um certo tom de ironia toda essa sua malograda história-não-conjugal, inocentemente não captei, nas entrelinhas de suas palavras, o real sentido daquela conversa. Não fui capaz de perceber qual o fato marcante, ou qual a intenção que Seu Pedro conservava em seus pensamentos ao narrar-me todos aqueles fatos. Todavia, vindo de quem vinha, não poderia tardar muito para se desvendar suas reais intenções. E foi justamente isso o que aconteceu.

(...) Conheço uma coroa lá no morro. Conhecida há tempos... Viúva como eu. Vez ou outra marcamos uma folia lá em casa, sabe. Quando isso acontece – geralmente uma vez por semana –, ela vai lá em casa, sempre depois das 11 horas (23hs).

Tá, Seu Pedro, já entendi... Mas diga-me uma coisa, com toda a sinceridade: essas coroas, já sessentonas, tem mesmo fogo?

Oh, rapaz. Cruscredo. Essa mesmo vou te contar... A mulher senta por cima de mim, enlaça as pernas no meu quadril que me estoura todo. Coisa horrorosa!! Mas é claro que primeiro eu tomo a pílula mágica, né (rsrs).

Mas é mesmo, é...

É sim... Mas também vou te contar o seguinte. A desgramada só quer saber de mamãe-e-papai. Eu já disse pra ela que isso é coisa ultrapassada, antiquada. Que o negócio mesmo é fazer uma chupetinha. Sabes o que ela me disse?

Hum... O que?

Deus o livre. Eu colocar um pinto na boca? Não, né. Mas tu se acostuma, mulher, é facinho facinho.

E aí, Seu Pedro... Já conseguiu.

Ainda não, meu filho. Mais eu ainda pego aquela danada de jeito.

 

 

Pois é, eis o Seu Pedro. Sempre com uma história interessante para nos contar. Cada coisa bacana que eu ouço dele no auto-atendimento do banco do brasil. Eis uma das vantagens de se trabalhar com o público, principalmente com o público simples que ainda insiste em permanecer incólume nessa pequena ilha do atlântico sul.

 

*HISTÓRIA OCORRIDA EM 01-06-2011

 

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por Visconde de Sabugosa às 22:59



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