Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BLOG do VISCONDE



Quinta-feira, 08.11.07

HÉLIO GASPARINI

Sentado em seu leito, Hélio olha perdidamente para o seu reflexo projetado no espelho dependurado sob a parede. Aquela figura esquálida, de meia idade, calvo e de cabelos grisalhos parece distorcer-se levemente como se o seu reflexo aos poucos se esvaísse. Sinceramente não se perturbara mais com esta imagem, pois há alguns dias já percebera tamanha disparidade em seu reflexo. Provavelmente alguma falha no espelho provocara assustadora aberração, embora jamais ouvira alguém lhe relatar nada semelhante. Nem mesmo ele, sempre tão taciturno e pacato, acreditava ter nesse fenômeno algo de sobrenatural ou sobre-humano. Também pudera, tratar uma “simples” distorção de seu reflexo como algo extraordinário poderia significar que desvirtuados estavam seus sentidos, o que, de fato, não parecia corresponder com a verossimilhança dos fatos. Pelo contrário, sempre muito solícito, o discreto escriturário de um modesto escritório de advocacia já até pensara em adquirir um novo espelho para dar cabo a esse desagradável equívoco. Idéia que imediatamente teve que ser adiada não somente pelo simples fato de a lua já estar posicionada no ponto mais alto do céu, anunciando que já era passada a hora de seu descanso, mas principalmente pelo dispêndio que tal ato causaria ao seu modesto e suado ordenado.



**** ****



Uma fina e úmida névoa matinal de inverno encobre o ambiente, ofuscando levemente a paisagem. Embora a temperatura esteja amena e o sol ainda não tenha desbancado por completo no horizonte, o nosso Hélio retira de seu guarda-roupas seu velho paletó puído e cheirando a mofo. Um ato quase que frenético usar uma peça tão quente para um inverno com temperaturas relativamente elevadas e ausente do típico vento sul que costuma bater impiedoso, e com freqüência, na cidade de Florianópolis. Certa vez lera em um livro, perdido na imensidão turva de sua memória, que o vento é portador de importantes coisas. Não sabia ao certo o que isso significava, nem que proporções adquiria em sua vida tal afirmação, mas temia a possibilidade de não ter que conviver com as fortes rajadas, quase que diárias, de vento. Temeroso a qualquer meio de transporte marítimo, tinha a convicta certeza de que não sofreria do mal de Ulisses, 20 anos à deriva em alto-mar, mesmo porque nem à praia gostava de ir, embora residisse não muito distante de algumas. Esse seu curioso gosto pelos ventos alíseos que, se não o traziam benefícios concretos, malefícios muito menos poderia ser explicado talvez por essa dificuldade física que o ser-humano tem em se adaptar a novas experiências que fujam ao seu cotidiano fatídico.

De qualquer forma, o sol já despontara no horizonte. Como a semana é de férias, não se apressou em levantar-se da cama para ir trabalhar. Caso fosse dia de expediente, sua refeição matinal seria sorvida rapidamente, com nacos de pão sendo alternados com goles esparsos de café preto, seqüência que seria realizada quase que automaticamente por nosso protagonista. Nesse dia, não sabe bem o porquê, acordou pensando na sua imagem desfigurada no espelho, pensamento que repeliu de imediato. De fato, é de se estranhar tamanha atitude, na medida em que para Hélio Gasparini a sua imagem desfigurada, mesmo que vista de relance, pouco o incomodava. Sentiu um espasmo por perceber que a aterrorizante visão não o deixava em paz. O estado de letargia que se abateu sob Hélio foi breve porém intenso, e o fez indagar a respeito de todos esses constrangedores e perturbadores acontecimentos. Seria tudo isso verdade? Não estaria ele enganado, ou até mesmo iludido? Lembrara, nesse momento, que a primeira vez que percebera algo de diferente no seu reflexo foi numa tarde chuvosa, após beber praticamente uma garrafa inteira de vinho. Ademais, essa imagem não teria sido vista no espelho, e sim na beira da praia, enquanto caminhava após a estiagem da chuva. A sensação que teve, naquele momento, é que sua imagem borrava gradativamente até se tornar uma imperfeita mancha.

Não deu muita atenção ao ocorrido, mesmo porque sua visão, além de deturpada pelo efeito do álcool, ficou prejudicada pelo leve balancear das sinuosas ondas. Contudo, desse dia em diante todas as vezes em que se deparou com sua imagem no espelho teve essa mesma sensação, embora não tão claramente quanto naquela primeira vez na praia. Talvez por isso tenha se mantido, até nesse instante, relativamente despreocupado com esses fenômenos. Acontece que nessa manhã de julho, ensolarada e amena manhã de inverno, Hélio despertara pensando em todas essas coisas. Por um instante sentiu medo de se deparar com seu próprio semblante. Não fazia sentido, sabia bem disso, todavia preferia evitar sua própria imagem a ter que se deparar consigo mesmo, seu maior medo. Mesmo ciente de que nada havia de errado consigo, e de que ninguém, nenhum colega de bar sequer, tivesse notado pequena diferença que fosse em seu semblante, algo lhe dizia, nesse momento, que sua fisionomia estivesse de fato desfigurada. Sensação que tentou aplacar de imediato, mas que inevitavelmente não conseguiu.

A saída que encontrou nosso protagonista para afastar os maus pensamentos foi Imagem 1: Daniel Hillesheinse dirigir, ainda cedo, para o bar Maria do Mar, próximo à orla da praia da Barra da Lagoa, não muito distante de sua casa. O aconchegante bar é propriedade de Dona Dorotéia, uma senhora gorda,com um olhar cândido e um sorriso acalentador e com fartos seios pendendo sob suas largas roupas. Viúva de um marinheiro gaúcho, mudou-se ainda jovem de Fortaleza, com o marido, para Florianópolis, de onde nunca mais veio a sair. Com o falecimento precoce do marido, lá pelos idos da década de 1960, montou, com o dinheiro recebido do governo, esse modesto, porém agradável e muito bem freqüentado bar. Como já afirmado, a manhã estava deveras agradável, propícia para um passeio à beira-mar, curtindo o calor gostoso das manhãs ensolaradas de inverno e relaxando com o balé das gaivotas que sobrevoam os barcos de pesca fundeados no canal da praia. Todavia, com o espírito um tanto nublado, Hélio refuta essa opção, dirigindo-se ao Maria do Mar.

— Quem é vivo sempre aparece, hein!, disse sorridente Dona Dorotéia. Fazia tempos que não te via por essas bandas.

Com um ar de poucas palavras e incomodado pela presença inoportuna da mulher, resignou-se a cumprimentá-la com um discreto sorriso, seguido de um leve aceno de cabeça, respondendo o que quase sempre respondia: “ ocupado, minha senhora. Muito ocupado”. Verdade é que Dorotéia sabia que não estava ocupado, mesmo porque bar é local para tudo quanto é tipo de gente, menos para gente ocupada. Até mesmo em seu estabelecimento, conhecido pelos moradores da região como local agradável e tranqüilo para se freqüentar, é incomum a visita repentina de alguém que vive ocupado. Seu bar é freqüentado por pescadores no final de tarde, por pessoas à procura de um momento de lazer, após estafante dia de trabalho, por pessoas em férias, ou até mesmo por bêbados e vadios, estes em horário de baixo movimento. Todavia, para Dorotéia todos eram desocupados à procura de lazer, ou melhor, à procura do que fazer. Não existia freguês seu que não tinha tempo para uma visita semanal que fosse, a não ser que esse freguês se chamasse Hélio Gasparini.

— Vais beber alguma coisa?, perguntou carinhosamente a mulher.

— Que tal uma cerveja bem gelada para relaxar...

Com a rapidez e a exatidão dos bons comerciantes, prontamente foi atendido. Assim que deu o primeiro gole, notou algo diferente no semblante das pessoas a sua volta. Teve a ligeira sensação de que estavam todos lhe observando, como se fosse algum estranho ou algum forasteiro. Contudo, quanto mais analisava, menos percebia que algo de estanho à natureza comum ao bar acontecia. Por um momento fortuito teve essa ligeira sensação: que todos o olhavam, como se não o conhecessem. De imediato lembrou-se daquele fato elementar de sua consciência, irritando-se. Também pudera, não é comum pessoas de seu círculo social o indagarem com olhares suspeitos e constrangedores. Não estava acostumado a isso, daí seu irritamento. Menos mal que parecia apenas uma impressão sua, alimentada pelo seu transtornado espírito, fato que, todavia, não contribuiu para amenizar a suspeita de que estava sendo vigiado.

Querendo aparentar tranqüilidade, mostrou-se indiferente e sereno. Nesse momento já tinha esvaziado meia garrafa de cerveja e já estava se preparando para encher mais um copo. Queria encerrar logo a garrafa para poder se esconder dos olhares inquisidores que o cercavam. Não entendia como não percebera ainda ninguém o vigiando, já que sentia estar sendo constantemente observado. Algo um tanto estranho para o nosso amigo Gasparini, já que se não estava cercado apenas de amigos, muito menos de gente estranha o estava. Agoniado e constrangido, e achando toda essa situação uma bobagem criada pela sua cabeça, dá um enorme gole de cerveja, sorvendo todo o líquido contido no copo de uma única vez. É nesse momento que, de relance, se depara com sua imagem projetada na mesa que estava sentado. Um detalhe que o narrador escamoteou do leitor diz respeito ao fato de as mesas do Bar Brasil serem todas redondas e com tampos de vidro levemente escurecidos e ornados com uma singela peça artística em consonância com a decoração ambiente.

Quem viu a expressão de desespero que se abateu por alguns segundos sob o rosto do nosso protagonista, não teve outra sensação que não a de medo, um medo ocasionado por uma respulsa erigida pelo estado de terror que assumiu seu semblante. Novamente aquela visão o perturbara; novamente sua desfigurada imagem se construía em seu pensamento, fazendo-o crer que era uma fera. Perplexo pelo que viu — é que desta vez parecia ainda mais desfigurado seu reflexo — bebeu rapidamente mais um copo de cerveja e se retirou sem pagar a conta e sem se despedir de Dorotéia. Atitude que para a proprietária do bar foi considerada normal, na medida em que conhecia bem a personalidade de Hélio. Não fora a primeira vez que se retirara sem falar com ninguém, nem mesmo com ela, colega de anos. De repente decorra daí sua relativa indiferença a essa atitude repentina. “— Vive com a macaca, esse velho rabugento!”, dizia, com um discreto sorriso nos lábios, a proprietária do bar.

Foi assim que deixou para trás o Maria do Mar, rumo a sua casa. Certamente muitas coisas pensou nesse trajeto, pois ficara realmente com uma “pulguinha atrás da orelha”. Se até então apenas ele tinha notado algo de estranho em si mesmo, agora a situação mudara, pois não foram poucos os olhares furtivos porém desconfiados. “— O que será que está acontecendo comigo? Por que diabos estou me transformando num sujeito sem expressão, quase sem identidade?”, perguntou a si mesmo. E é bem assim que se sentia: um sujeito sem expressão e identidade. Já no seu quarto, resolveu deitar-se na cama para descansar um pouco. A idéia era dormir para tentar esquecer esta tarde, porém sabia que não conseguiria descansar tão cedo, já que em sua cabeça ruminavam muitos pensamentos — um verdadeiro turbilhão de sentimentos. Como se pode perceber, a vida de Hélio Gasparini é monótona e, até certo ponto, solitária. Quando não está trabalhando, vai para casa, e quando não faz uma coisa nem outra passa no bar de Dorotéia. Uma vez ou outra que pratica uma caminhada na praia para espairecer os pensamentos e sentir o cheiro gostoso da maresia. Porém, após aquele acontecimento, nunca mais se aventurara a caminhar pelas areias brancas da praia. O receio que aquela inusitada situação o causara, fez com que Hélio se encastelasse ainda mais, se tornasse ainda mais introspectivo e retirado.

Atitude execrada por alguns a maneira como Hélio se escondia em si mesmo, mas atitude certamente tomada como uma medida preventiva e de auto-preservação de si mesmo. Ainda mais agora, após notar certa estranheza no semblante das pessoas que o analisavam. Sempre muito solícito, Hélio nunca fora uma pessoa exposta aos olhares furtivos, porém agora estava completamente recluso, à parte do mundo que o cerca. Até mesmo seus peculiares modos sofreram algumas mudanças, e seu gosto pelo passeio, sentindo o forte vento sul batendo no seu rosto (acompanhado de seu puído paletó), teve que ceder lugar à reclusão em sua casa. O sol que anteriormente resplandecera imponente nas paredes internas de seu quarto, agora se escondia fugidio por detrás das persianas — espécie de invólucro protetor que nutria em Hélio uma espécie de segurança materna.

Como nosso amigo Hélio não tinha ninguém para orar por ele, acabou contratando uma empregada, ou melhor, uma pessoa para limpar sua casa semanalmente. Mesmo que não fosse uma pessoa desatenciosa com os afazeres domésticos, serviços mais pesados de limpeza necessitavam de alguém mais experiente para o assunto. Como as férias ainda eram correntes, Hélio Gasparini permaneceu trancafiado em sua masmorra, relativamente despreocupado com o mundo a sua volta . Lamentava apenas as horas demoradas que prolongavam ainda mais seus dias e suas noites. Talvez por isso passava dois ou até três dias inteiros trancado em seu quarto, com as janelas fechadas e a porta semi-aberta, apenas digerindo esses acontecimentos. É como se a relativa escuridão que envolvia o seu quarto o acalmasse, fazendo-o esquecer, mesmo que por instantes, sua degradante situação. Até mesmo a mulher que ele contratara para fazer osImagem 2: Daniel Hilleshein serviços mais pesados da casa raramente o via. Mesmo porque não durou muito no ofício, a pobre mulher, já que, para Hélio, o fato de ter que conviver quase que diariamente com aquela figura desconhecida causava-lhe um certo desconforto e mal-estar.

E não era para menos, já que seu reflexo, cada vez mais borrado, desfigurava agora não somente seu rosto, mas seu corpo por inteiro, a ponto de se sentir, Hélio, como uma enorme e berrante mancha ambulante. Se outrora apenas o seu rosto era uma massa desfigurada, agora todo o seu corpo também o era. Braços, pernas, dedos, joelhos e pés, nada escapava. Tudo se tornara uma massa amorfa, como se todo o seu ser se contorcesse. Nesse momento, por algum motivo fortuito, Hélio Gasparini percebeu que não seria mais o mesmo, que sua identidade mudara para sempre e que o restante de sua vida passaria trancafiado em seu escuro quarto. Nunca mais sentiria o vento sul tocar o seu rosto, nem iria mais ao bar Maria do Mar — local para ele aprazível. Até mesmo as raras caminhadas na praia agora começavam a fazer falta, motivo que o levava a crer que toda a sua vida sumira, tornando-se uma página obscura num passado remoto.

Passados alguns meses de seu sumiço ninguém notara sua falta, a não ser Dorotéia, que, por vezes, ia a sua casa, à procura de notícias. Não encontrando nada, nem ninguém, voltava cabisbaixa para o bar, indagando-se qual seria o seu fim. Raramente se falava em Hélio, raramente se comentava a sua repentina ausência. Nem mesmo os colegas de trabalho, alguns afeitos a sua presença, sentiram a sua falta. Independente do que diziam ou deixavam de dizer acerca da pessoa inusitada que fora Hélio Gasparini, o certo é que sua figura ficara para sempre ofuscada na lembrança de todos que um dia tiveram contato com ele. Hélio Gasparini evaporara do mundo como uma fina névoa, não deixando saudades ou lembranças, ficando apenas, em seu lugar, uma figura amorfa, sem nome, títulos e identidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Visconde de Sabugosa às 02:34



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Novembro 2007

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930