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BLOG do VISCONDE



Quinta-feira, 08.10.15

ONDE HÁ DOR HÁ LUCRO: o triste retrato dos imigrantes haitianos no Brasil e em Santa Catarina

A imigração é uma expressão global do direito de ir e vir. Uma conquista e um direito que todo e qualquer ser-humano, mulher ou homem, têm o direito de exercer, independente de sua condição social, crença ou raça. No entanto, ao menos para um setor mais conservador da sociedade brasileira, parece-me que esta conquista não é válida. Pelo menos para aqueles diferentes de seus congêneres.
 
Por isso, não é de se estranhar a repercursão que vem causando a imigração de centenas (ou alguns milhares) de haitianos para nosso estado. É bem verdade que, contrárias às manifestações racistas, xenófobas e fascistas referentes à chegada de trabalhadores haitianos ao país, há também outros setores da sociedade que se solidarizam com a situação pela qual passam estes imigrantes, que se vêm a nosso estado é procurando a dignidade que lhes foi roubada em seu país de origem.

Em todo o discurso contra medidas aplicadas em favor de imigrantes haitianos há um discurso racista disfarçado de nacionalista. O Brasil está com suas tropas militares no Haiti há mais de 10 anos. E durante todo este tempo não fez mais do que reprimir o povo haitiano para garantir interesses de grandes empresas (Disney, Levi's...) com sedes no exterior. A Minustah - que atualmente conta com aproximadamente 8.800 efetivos - foi destacada pouco depois da derrubada do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, em uma revolução protagonizada pelos trabalhadores em 2004. Conta com tropas de 16 países, sendo o Brasil o lider, por contar com o maior efetivo: 1.200 homens.

A ocupação militar no Haiti, liderada desde sempre pelo governo brasileiro (sem nenhuma oposição na câmara e senado), segue massacrando a população do país caribenho. Segundo organizações de "direitos humanos", inúmeras pessoas foram assassinadas e feridas pelos capacetes azuis da Minustah (Missão para Estabilização do Haiti da ONU, na sigla em francês), a partir de 2004. Desde então foram registrados massacres, torturas, estupros e outras agressões contra a população civil, sobretudo nas favelas.

O episódio mais violento foi registrado em 6 de julho de 2005, quando as forças da Minustah, com mais de 300 soldados, 18 tanques e pelo menos um helicóptero, realizou uma grande ofensiva em Cité Soleil. O alvo oficial era Dread Wilme, acusado de ser um líder de gangues. Evidências coletadas por diversos investigadores logo após a ação indicam que a Minustah foi protagonista de um enorme massacre. Dois dias depois, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira e o coronel Jacques Morneau afirmaram que desconheciam acidentes com civis e caracterizaram a operação como um sucesso. O coronel Morneau levantou a hipótese de que as mortes foram obra das gangues. No entanto, as provas coletadas contradizem esta afirmação e indicam que a Minustah, incluindo soldados situados no helicóptero, atiraram em civis desarmados, dentro de suas casas, destruindo-as. Cerca de 60 corpos foram encontrados.

O Haiti continua sendo o país mais pobre da América, onde mais de 75% da população vive com menos de US$ 2 por dia e apenas a quarta parte das rodovias são pavimentadas. Com a guerra e os golpes de Estado, a indústria têxtil haitiana diminuiu cerca de 80%, mas ainda representa 10% do PIB e 68% das exportações do país. Falta energia elétrica todos os dias e cerca de 80% da população está desempregada. Pelas tabelas oficiais, uma costureira na capital, Porto Príncipe, deveria receber US$ 0,50 por hora, contra US$ 3,27 no Brasil e US$ 16,92 nos EUA.

Para além do discurso oficial da ONU, de que a Minustah é uma missão humanitária e blá-blá-blá, os fatos concretos apontam para uma intervenção em defesa da manutenção de interesses estrangeiros associados às classes dominantes locais. Prova disso é a declaração do comandante da Minustah, o general brasileiro Heleno Ribeiro Pereira, que diante de uma comissão parlamentar no Congresso Brasileiro afirmou sobre o USA, Canadá e França: "Estamos sob extrema pressão da comunidade internacional para usar a violência". Em 2004, em entrevista à Rádio Metrópole, o general afirmou: "Nós temos que matar os bandidos, não qualquer um, só os bandidos".

Bandidos, no caso, são aqueles que se opuseram e se opõem à ocupação de seu país por tropas estrangeiras. Do outro lado estão as classes dominantes haitianas, latifundiários e grandes burgueses, cerca de 3% da população, representada essencialmente pelos grandes empresários Reginald Boulos, Charles Henry Baker, Jean Claude Bajeux e Andre Apaid.


A culpa é do imperialismo

Em 2011, o site WikiLeaks disponibizou documentos que deixavam clara a intervenção direta dos Estados Unidos para a manutenção do miserável salário mínimo haitiano. Segundo o documento, a embaixada estadunidense se reuniu, em 2009, a portas fechadas, com proprietários de fábricas contratadas pelas empresas Levi's, Hanes e Fruits of Londom com o intuito de bloquear o aumento do salário mínimo reivindicado pelos trabalhadores da indústria têxtil. Na ocasião os trabalhadores lutavam por um salário bruto de 62 centavos de dólar por hora, o que equivaleria a 5 dólares por 08 extenuantes horas de trabalho.

As gigantes multinacionais não queriam conceder mais "privilégios" para os trabalhadores da indústria têxtil, que já davam grande despesa mensal para os empresários com um salários diários de 70 gourdes por dia, ou 1 dólar e 75 centavos de remuneração diária. Isto é, 0,22 centavos de dólar por hora trabalhada.

 
Ciente da gravidade da situação, o embaixador estadunidense da época, Janet Sanderson, exigiu que o então presidente Préval resolvesse de uma vez por todas o impasse gerado sobre o aumento do salário mínimo e os protestos cada vez maiores e mais radicais pela sua conquista, temendo obviamente que "o ambiente político pudesse fugir de controle". Dois meses depois, Préval negociou um acordo com o Congresso para estabelecer dois tipos de salários mínimos: um para a indústria têxtil de 3,13 dólares por dia (125 gourdes) e outro para todas as outras indústrias e setores comerciais, de 5 dólares por dia (200 gourdes).

Mas mesmo assim, a embaixada americana não ficou satisfeita. O chefe da missão, David E. Lindwall, disse que um aumento para 5 doláres “não leva em conta a realidade econômica”, e teria sido apenas uma medida “populista” para apelar “às massas desempregadas e mal-pagas”. Segundo este mesmo senhor, um aumento de tamanha magnitude provacaria um colapso nas finanças das empresas, o que acarretaria em uma onda de desemprego ainda maior no país, amplificando ainda mais o colapso social por que passa o país: cerca 3,3 milhões de habitantes (1 terço da população) está em risco iminente de fome.

Segundo o haitiano Franck Seguy, que acaba de defender sua tese de doutorado “A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, sob orientação do professor Ricardo Antunes, o Haiti - ao contrário do que afirma a grande imprensa burguesa - não vem sendo ajudado. Pelo contrário! Mesmo com a extrema miséria, o Haiti é que ajuda a todos!

“A ajuda internacional ao Haiti é a grande mentira que a mídia conta”, disse o pesquisador. Em sua tese, ele sustenta que o catastrófico terremoto de janeiro de 2010, que deixou cerca de 300 mil mortos e 2,3 milhões de desabrigados, deu ao que ele chama de “Internacional Comunitária” – o conjunto de países hegemônicos e organizações a eles vinculadas, comumente chamados de comunidade internacional – a oportunidade de impor a recolonização do país. “Literalmente, o Haiti está se tornando uma colônia”, disse ele. “Não uma colônia como antigamente, a colônia de uma metrópole, mas é uma colônia do capital transnacional”.

O projeto de recolonização, afirma Seguy, já ficava claro no texto do “Plano de Ação para a Recuperação e o Desenvolvimento o Haiti” (PARDN), apresentado pelo governo haitiano dois meses depois do terremoto.  Este plano, que fora apresentado aos seus "parceiros internacionais" e não à sociedade civil do país, representa, na prática, uma mera atualização de um estudo realizado pelo economista Paul Collier, da Universidade de Oxford, enviado ao Haiti pelo Secretário Geral da ONU, e que publicou o relatório dele em janeiro de 2009”, explicou o pesquisador. Em suma, o que está sendo aplicado é um plano anterior ao próprio terremoto e com a exclusão de empresas haitianas do setor da construção civil.

O Haiti é dividido em departamentos, e a capital Porto Príncipe - local onde ocorreu o terremoto - se situa no Departamento Oeste. Contudo, no que concerne à “reconstrução” do país, a região que vem sofrendo intervenção é o Departamento Nordeste, no outro lado da ilha, mais especificamente no parque fabril de Caracol (construído em boa parte com dinheiro oriundo de ajuda humanitária e não de investimentos privados), em um terreno de “250 hectares de terras cultivadas por famílias campesinas, que o governo expropriou”. Tanto que, segundo um levantamento da agência de notícias Reuters, ainda havia, no final do ano de 2014, mais de 150 mil pessoas morando em tendas e abrigos improvisados e insalubres na capital, sem as menores condições de higiene, sem água limpa e sequer pias para lavar as mãos.

“No dia 11 de janeiro de 2011, ou seja, um dia antes do primeiro aniversário do terremoto, o governo haitiano havia assinado um acordo com a secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, junto a representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a companhia de têxtil coreana, Sae-A Trading, em virtude do qual os 366 lares de agricultores que trabalhavam 250 hectares de terras das mais férteis do município precisavam ser expropriados para deixarem o lugar à construção de uma zona dita industrial”, diz a tese. As famílias que tiveram suas terras desapropriadas ainda aguardam indenização.

A intenção é clara: explorar a mão de obra qualificada e experiente dos haitianos para que grandes empresas se aproveitem de uma série de leis dos Estados Unidos, que permitem que produtos manufaturados haitianos entrem no país sem pagar tarifas, para estabelecer uma série de zonas francas para a produção têxtil. Dado que o Haiti já produzira uma indústria têxtil relativamente consistente, o rebaixamento do custo de uma mão de obra bastante competente acarreta em produtos de qualidade aliados a um baixíssimo custo de produção, inferior inclusive ao custo da produção asiática, com a enorme vantagem da curta distância entre os dois países.
 
Asituação dramática dos imigrantes haitianos no país e em Santa Catarina
 
A viagem até o Brasil não é nada fácil para estes haitianos. A começar pela saída de seu país. Tendo como parâmetro os baixíssimos salários pagos no Haiti e a situação de verdadeiro caos social, com a grande maioria da população desempregada, note-se o quão é difícil arrecadar fundos para a saída do país na busca de uma vida um pouco menos indigna.

Famílias inteiras empenham-se na tarefa para que um, no máximo dois integrantes conquistem o dinheiro necessário para deixar a ilha. No total são necessários, entre passagens, gastos com os coiotes (atravessadores e aliciadores) e suborno de policiais no Peru para atravessar a fronteira, algo em torno de 15 mil reais. Daí já se tem a ideia da verdadeira epopeia que é migrar para o Brasil.

Não bastasse isso,  os recém-chegados são alojados em instalações precárias, aos montes, como se fossem bichos. Do Acre, sua porta de entrada para o Brasil, partem geralmente para São Paulo e, de lá, para os estados do sul do país. Alguns vão também para o Rio de Janeiro.

A situação no país de origem é tão ruim, que aceitam a exploração como forma de alimentar o sonho de um dia melhorar de vida e conseguir enviar dinheiro para ajudar seus familiares. Não a toa são empregados assim que chegam, em muitos casos. Não que o estado ou setores burgueses e pequeno-burgueses estejam empenhados na socialização dos imigrantes aqui no país. Pelo contrário! Aproveitando-se do medo de possíveis represálias, ou simplesmente do medo de retornarem de mãos vazias, exploram severamente estes trabalhadores em empregos muitas vezes subumanos.

Em São Paulo, por exemplo, é muito comum haitianos e bolivianos irem trabalhar em oficinas de costura. Estes imigrantes trabalham até 16 horas por dia, seis dias na semana, amontoados em salas claustrofóbicas. Em casos mais extremos, dividem alojamentos improvisados e insalubres, instalados anexos às oficinas onde trabalham e recebem uma remuneração mensal equivalente a R$ 300,00 por mês, sobre a qual é aplicada descontos ilegais referentes a hospedagens e à alimentação.

Esses casos de escravidão desnudam não somente a situação precária nas quais são recebidos e instalados estes imigrantes, mas principalmente desmascara o caráter humanitário da burguesia brasileira. Somente em São Paulo já foram desmontadas 50 oficinas até agora, todas estas com condições de trabalhos análogas às citadas acima. E o pior: legalmente os imigrantes têm o mesmo direito que um trabalhador brasileiro, mas não sabem disso!

Já em Santa Catarina, se (ainda?) não se tem registrado casos que expõem claramente trabalho escravo, também não dá para afirmar que as vidas dos imigrantes da ilha caribenha são um mar de rosas. Nesta ilha aqui, por exemplo, não é difícil encontrá-los trabalhando em locais por nós já "desprezados", tamanha a exploração e a precariedade do trabalho.

E mesmo aqueles que conseguem um emprego menos brutalizante, muitas vezes têm que trabalhar duas ou até três horas a mais para ter um salário compatível com a média do trabalhador brasileiro, pois percebem um salário que varia de 30 a 50% abaixo da média local. Eis o caso de Jeremi Dozina, em Florianópolis desde 2014, que em uma matéria publicada pela Folha, afirma: "Geralmente trabalho de segunda a sábado, folgando aos domingos. Estou registrado no trabalho, recebo um salário mínimo, mas não estou completamente regularizado. Ainda hoje só tenho o número de protocolo de entrada no país, que todos os haitianos recebem quando chegam. No Haiti não há tantas pizzarias como aqui. Lá a maioria da população não consegue comprar uma pizza, que é uma comida considerada de rico."

E por todo o estado a situação se repete. Em Chapecó e municípios limítrofes, por exemplo, eles são empregados nos frigoríficos da região, carente de mão de obra local tamanha a insalubridade dos postos de trabalho. Conhecidas como fábricas de mutilação, os frigoríficos recorreram antes a imigrantes argentinos, fugidos da crise de 2001, mas hoje recorrem aos haitianos, pois aqueles preferiram retornar a Argentina a ter que aturar o regime de trabalho dos frigoríficos.

Receber os imigrantes haitianos, refugiados de seu país, em Santa Catarina, não transforma a burguesia catarinense em uma classe social mais humanitária. Nós, catarinenses e brasileiros, devemos nos solidarizar com o povo haitiano e repudiar a ação truculenta da Minustah, que tanto tem colaborado para a manutenção das políticas imperialistas na região. Devemos exigir do governo brasileiro a retirada imediata das tropas do Haiti, pois além de prejuízo para os cofres públicos (bilhões já foram gastos), há também o desrespeito ao ser humano, ao próximo.

Não devemos jogar nas costas dos imigrantes a responsabilidade por nossas mazelas. Eles não roubam nossos empregos, como a imprensa muitas vezes sugere. Nem tampouco são contemplados com bons cargos em boas empresas. Pelo contrário: se há oferta de trabalho para os haitianos é pelo fato de os empresários daqui utilizá-los para impor uma exploração que estão tendo dificuldade de manter para os trabalhadores brasileiros. Compreender as dificuldades pelas quais passam estes imigrantes é um passo importante para combater a xenofobia e dizer NÃO AO RACISMO! Trabalhadores não têm pátria! Devemos antes de tudo questionar nossos valores, nossos preceitos e lutar com todas as nossas forças contra toda e qualquer forma de exploração, lado a lado não somente com os haitianos, mas com todos os trabalhadores. Afinal, há ser humano melhor que outro?
 
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Publicado originalmente em PSTU Florianópolis
 
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Dialogando:

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por Visconde de Sabugosa às 14:46

Quinta-feira, 08.10.15

A Histórica relação entre os EUA e Israel

 

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Há alguns dias a imprensa nacional destacou mais uma vez uma matéria que no ano passado causou um certo frisson não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Trata-se de uma pensão vitalícia que o governo dos Estados Unidos paga a velhos criminosos nazistas. Estas manchetes, que se arrolaram como vírus pela rede, chocaram o mundo por expor o lado corrosivo do sistema jurídico estadunidense.

Trata-se de uma "brecha" na lei que favorece esses criminosos. É que, conforme o próprio Departamento de Justiça dos EUA, a lei autoriza que estes benefícios sejam pagos a indivíduos que renunciam à cidadania americana e deixam o país voluntariamente. Obviamente, que a lei não se aplica aos latinos e negros na mesma situação, mas "encaixa-se como uma luva" para beneficar assassinos criminosos que lutaram ao lado de Hitler.

Parece ironia que a maior economia do mundo, a democracia mais bem constituída dentro do capitalismo, retire parte de seu orçamento para pagar a aposentadoria dos verdurgos de milhões de judeus, povo do qual afirma defender e admirar. É de fato uma notícia de fazer virar os olhos e torcer o nariz daqueles mais conservadores; daqueles que defendem a democracia burguesa como o mais bem-acabado sistema social que podemos criar. Perfeita para estes(as) senhores(as), que se consideram arautos da consciência política, defensores e pregadores de uma moral reconhecida por eles como íntegra e/ou divina. Destes(as) que não passam de meros filisteus, incapazes de compreender um palmo de realidade, que subjugam e deturpam a mais rasteira lógica formal. Por isso, não é de se espantar que a costumeira inversão de valores que proclamam estes batráquios hora ou outra cuspa em suas ventas os impropérios que lançam indiscriminadamente contra todos os que se prostram em seus Caminhos.

Estas já seriam manchetes interessantes por isso, mas não… Elas têm muito mais a dizer… muito mais a esclarecer… muito mais a desvendar… Primeiramente, por demonstrar de maneira clara o caráter do imperialismo e dos EUA em particular. Há muitos por aí defendendo que os Estados Unidos são a pátria da justiça, da idoneidade, da honestidade, onde há liberdade e oportunidade para todos. No entanto, a despeito do que divulgam seus propaladores, as relações entre os EUA e os oprimidos pelo regime nazista na Europa em guerra nunca foi das mais harmônicas.

Isso porque à época as diretrizes políticas do Departamento de Estado norte-americano dificultavam bastante a emissão de vistos de entrada para os refugiados. Apesar da perseguição constante aos judeus na Alemanha, a atitude do Departamento de Estado era influenciada pelas privações econômicas da época da Depressão (OBS: 1930 até meados de 40), que haviam intensificado o antissemitismo, o isolacionismo e a xenofobia da sociedade civil. O número de vistos de entrada foi ainda mais limitado pelo Departamento, devido à aplicação inflexível de uma lei de imigração restritiva, aprovada pelo Congresso dos EUA em 1924. A partir de 1940, os Estados Unidos limitaram ainda mais a imigração, ordenando aos cônsules estadunidenses no exterior que atrasassem as aprovações dos vistos sob a justificativa de questões de segurança nacional.

Como é sabido, o estado sionista de Israel instaura-se no Oriente médio no final da década de quarenta, logo que finda a segunda guerra mundial. Esta "base" do imperialismo na região, a despeito do que afirmam seus defensores, não foi criada para abrigar os perseguidos pelo regime nazista de Hitler (ou não somente), mas principalmente para facilitar a exploração das riquezas na região, em especial o petróleo. Daí a necessidade premente da construção de uma "base", de um estado autoritário, repressor e controlador no seio do Oriente Médio. Assim nasce o estado sionista de Israel.

Para este intento, não é pouco lembrar a forte influência que os sionistas têm na terra do Tio Sam. Diria até que o lobby sionista é o mais forte por lá, sendo financiado por grandes empresários e empresas multinacionais com interesses político-econômicos na região. Isso favorece o financiamento de uma gigantesca e eficientíssima máquina propagandística sionista que visa única e exclusivamente a reprimir os povos árabes na região, com o intuito claro de favorecer os interesses do imperialismo internacional.

Bem da verdade, o lobby sionista reúne grupos, empresas, políticos e indivíduos que influenciam os governos de países ocidentais, no sentido de apoiar os objetivos do sionismo em todo o mundo, mas especialmente na sustentação do estado de Israel. O lobby é particularmente poderoso nos EUA e na Grã-Bretanha, como aponta o livro "O lobby pró-Israel e a política externa dos EUA", escrito pelos professores John Mearsheimer (Universidade de Chicago) e Stephen Walt (Harvard). Nos EUA, a principal organização do lobby sionista é o AIPAC - American Israel Public Affairs Commitee (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel), fundada na década de 1950 e com mais de cem mil membros ativos. É reconhecida como um dos mais poderosos grupos de pressão estadunidenses, comportando não somente representantes da elite sionista, mas também outros setores da burguesia imperialista.

Não à toa países como EUA, Inglaterra e França gastam milhões de dólares por ano em “investimentos” paramilitares em Israel*. Financiam, à custa do trabalhador e com dinheiro público, um dos maiores exércitos do mundo, esta máquina de destruição e genocídio usada não somente para reprimir e matar sistematicamente palestinos como se fossem ratos e pragas, mas para atacar também outros países da região, como Síria, Líbano ou Egito, por exemplo. Não, o nazifascismo não acabou; somente mudou de lugar: da Alemanha capitalista de Hitler, "migrou", assim que findou a guerra, para o coração do Oriente Médio, sob a batuta gerencial da elite sionista, que também financiou com armas e dinheiro o nazismo na Alemanha. Para eles, o fim justifica qualquer meio.

Este é um ponto, mas não o único. Todavia, para explorar outras questões, vamos nos aproximar da linha de pensamento destes(as) senhores(as). Em sua torpe relação com a história por meio de suas “teorias” e conforme sua forma privilegiada e clarividente de enxergar a realidade, o regime nazista se assemelha em tudo ao que chamam de comunismo. Isso porque, segundo eles, o regime soviético à época de Stalin e a posteriori (ao qual associam ao comunismo) é igual ao nazismo de Hitler.

Há certa razão nesta analogia, haja vista ambos serem criações, personificações, ramificações políticas reacionárias de sistemas sociais completamente opostos: a primeira oriunda de uma burocracia reacionária que se apoderou politicamente de um estado operário recém-criado e a segunda fruto de uma contrarrevolução em um país capitalista central na Europa, a Alemanha. Sob esta ótica, o paralelo é válido, mas somente sobre esta ótica. Do mais, não passam de gagueiras esfarrapadas proferidas por um Iago grosseiro e vil, que não sabe nem a arte de seu ofício.

De maneira tal que, mesmo do ponto de vista filosófico-político mais simples, comparam duas coisas distintas e incomparáveis: para eles, comunismo (um sistema social) = nazismo (um regime de governo). Sem nunca se aprofundarem nos clássicos, desconhecendo completamente conceitos que um símio dominaria com algumas horas de estudo, estes(as) senhores(as) julgam-se capazes de explanar toda a riqueza e profundidade histórica por trás do stalinismo (que é a negação não somente da revolução russa e do socialismo vindouro após a revolução, mas também do marxismo) e do nazismo, pondo-os num mesmo patamar e no mesmo lado da balança.

Para eles, religiosamente e hipocritamente, o stalinismo é o arquétipo do comunismo, quando na verdade é sua negação; sua aniquilação. E creem nisso tão piamente que citam esta ou aquela nação imperialista como contraponto à barbárie comunista, listando exemplos do que este sistema é capaz, da riqueza que o capitalismo é capaz de proporcionar aos afortunados que trabalham (como se o trabalhador não produzisse, não trabalhasse) e desconsiderando as misérias que o imperialismo impõe a 95% de outros países. Comparam Suécia com Coreia do Norte, ou com Cuba, quando deveriam comparar Cuba com Haiti, duas nações periféricas do capitalismo, por exemplo; ou Suécia com Polônia, Ou mesmo Cuba com algumas cidades e estados do sul dos Estados Unidos, onde negros e latinos são jogados na miséria mais brutal e absoluta. Os mais honestos, certamente notariam que a revolução cubana, longe (bem distante mesmo) de se aproximar do socialismo, trouxe centenas de conquistas ao povo cubano à época, até hoje não conquistadas em países como o Brasil, por exemplo.

Arrogar-se de conhecimento político é uma prática comum neste meio. Inclusive entre os tabloides que se intitulam especializados, arautos da informação e da consciência, como muitos conservadores e até reacionários por aí. Pois bem, vou seguir a mesma fórmula destes(as) senhores(as) de espírito vulgar e estreito para chegar a uma conclusão insofismável: se nazismo é sinônimo de comunismo e os Estados Unidos financiaram os nazistas e ainda financiam Israel, podemos afirmar que os Estados Unidos, esta nação justa e vindoura, é também comunista.
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Pubicado orginalmente em PSTU Florianópolis
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* Segundo a embaixada dos EUA em Israel, os contribuintes norte-americanos financiam anualmente entre 20% a 25% do orçamento israelense de defesa. FONTE: The Big Lie: That Israel Is a Strategic Asset For the United States. Por Chas W. Freeman, Jr. The Washington Report on Middle East Affairs, set.-out de 2010, p. 14-15.

Matérias referendadas neste artigo:
 
http://www.bbc.co.uk/…/20…/10/141020_nazistas_eua_pensao_pai
http://brasil.elpais.com/…/internaci…/1413904751_965829.html

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