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BLOG do VISCONDE


Domingo, 23.09.07

O intuito primeiro desse Blog

    Poupo-me de um texto longo para postar o que tenho o dizer por agora. Até bem pouco tempo atrás não conhecia e nem sabia a função de se fazer um weblog. Na verdade ainda Visconde de Sabugosanão me apetece a idéia de que o blog, com algumas boas exceções, sirva de fato para algo realmente proveitoso. Ao menos proveitoso para os outros, já que para quem o produz deva ter alguma importância. Em outro momento já salientei a importância relativa dessa ferramenta, não eximindo-me das críticas pertinentes a ela.

    Quando eu resolvi de fato escrever nesse blog, foi simplesmente para exercitar o hábito saudável da escrita -- e conseqüentemente da leitura --, indiferente ao fato do número de visitantes que eu receberia por dia, ou por mês. Escrevo por escrever, minha relação com o blog é essa. O próprio portal SAPO foi uma escolha oriunda do acaso: aqui parei e aqui me inscrevi. Como gostei da diagramação (é assim que se fala?) do sítio, adotei-o. Como sei que o que produzo não é do interesse da maioria absoluta das pessoas, regojizo-me apenas com o "fazer literário", tão solitário em sua essência.
    É claro que se algum navegador distraído aportar aqui na minha página e postar um recado qualquer ficarei muito contente. Mas o que me alimenta não é a vaidade ou a vontade de ver esse blog sendo visitado. Parafraseando Machado de Assis: antes meia dúzia de bons leitores que uma legião inteira que comigo não dialoga. Escrevo pelo ato de escrever, porém sem ser indiferente aos que possívelmente passem por aqui. Por isso escrevo do que me apetece: literatura, política, softwares livres... Por isso navego por esses campos. A liberdade é minha e a escolha é sua. Leia-me se quiseres. Se não quiseres..., um abraço.

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por Visconde de Sabugosa às 18:01

Sexta-feira, 21.09.07

Libertas Quae Sera Tamen

    Quem se depara com o título desse texto deve se perguntar por que diabos um dístico latino... Por que exatamente esse trecho, "Liberdade ainda que tardia", extraído da primeira Égloga de Virgílio e proposto pelos inconfidentes mineiros para marcar a bandeira da república que idealizaram, no século XVII, vem sugerir o assunto desse texto? Logo uma expressão latina, "antiquada" para os dias de hoje e apenas lembrada quando nos deparamos com a bandeira do Estado de Minas Gerais?
    Pois bem, o que sugere a colocação de um título desse quilate não é, a bem da verdade, nada tão inovador e/ou revolucionário quanto a conotação que o dístico assumiu nos idos do século XVII, num país colônia chamado Brasil. Sugerido, na época, por Alvarenga Peixoto e aprovado por Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, todos exímios latinistas, a frase serviu como palavra de ordem para a Inconfidência Mineira, movimento revolucionário ocorrido em 1789 contra o domínio português. Não, o propósito aqui é bem outro e recai, talvez, em algo até sem importância: os blogs.
    Até bem pouco tempo, como afirmei no primeiro texto postado aqui no Sapo, não sabia nem como iniciar um texto nesse pequeno quadrado que nos oferecem para postamos o que nos der vontade, independente de sermos ou não lidos, se seremos ou não "ouvidos" (eu, particularmente, penso que não). O que então me compraz a escrever algumas turvas linhas sobre algo quase que irrelevante, usado na maioria das vezes como diário pessoal, e não como laboratório de idéias?
    A resposta para esse questionamento é simples e direta: a liberdade que os blogs proporcionam às pessoas de se comunicarem e de exporem o que sentem e pensam. Mas acima não afirmei que os blogs são, na maioria das vezes, irrelevantes? Sim, e são mesmo. Na minha opinião a maioria dos blogs espalhados pela web não têm importância alguma (inclusive este, de repente), a não ser para as pessoas que o escrevem e para um pequeno grupo que se identifique com ele. Do mais, servem apenas para serem guardados em quartinhos sujos de badulaques. Mesmo porque acredito que mais de 90% dos blogs que rolam na internet são produzidos com o intuito puro e simples de diário pessoal, ou melhor, de fofocas pessoais do cotidiano adolescente.
    Todavia, mesmo nesses blogs há algo um pouco maior que a fofoca diária e irrelevante. Remeto-me à liberdade de expressão e à rapidez com que são "publicadas" idéias e fatos, a um baixíssimo custo. Talvez sejam essas as grandes vantagens de um blog. Em tempos em que as pessoas se encastelam em suas casas, tornando-se cada vez mais consumistas e individualistas, porém fragmentadas por diversas identidades*, essa ferramenta acaba atuando como veio comunicador (ainda que restrito) entre pessoas de um mesmo grupo. Ou seja, em tempos em que a liberdade é ainda mais limitada, Fulano escreve um texto e o repassa para Cicrano, que deixa seu comentário...
    Essa rede acaba proporcionando a comunicação e a troca de experiências entre os grupos e até mesmo entre pessoas que gravitam em torno desses grupos. Mesmo que sejam mexericos interpostos e "enriquecidos" com imagens e vídeos, há a troca de experiências que, para esta ou aquela pessoa, dizem algo. Esse é também o papel dos sítios de relacionamentos, onde encontramos pessoas que há tempos não víamos e até conhecemos novas através das comunidades que freqüentamos.
    Vejam bem que não sou um entusiasta dos blogs, fotologs e sítios de relacionamentos, irrelevantes para mim, ainda que eu tenha um blog e uma conta no orkut. Ao contrário... Como eu passei toda a minha adolescência distante da internet, ainda sou mais adepto da concepção de José Saramago, que diz que a carta é muito mais romântica que o e-mail, por exemplo, na medida em que naquela podemos esperar uma lágrima e neste não**.
    Ademais, se não sou um entusiasta desse novo veículo de comunicação, que é o blog, não deixo também de salientar sua relativa importância. Isso porque nele as pessoas dizem o que querem, com uma linguagem própria -- denominada, se não estou enganado, de internetês --, livre da padronização viciante da linguagem formal e que dialoga diretamente com  a forma de ver e pensar o mundo das pessoas que a utilizam. Assim, é  plausível uma pessoa publicar um blog falando de comida, fofocas, religião, sexo, literatura (ou tudo isso junto), sem o compromisso, por hora, de ser julgado pelo que escreveu***, mesmo porque nem precisa assinar com o seu verdadeiro nome.
    Contudo, se parar-se para observar é fácil notar que essa liberdade é limitada, não ultrapassando os limites impostos pela sociedade -- nem sequer ameaçando-os. Ou seja, além de as pessoas de hoje (como as de ontem) não terem liberdade, e os weblogs, como a internet colaborarem com o nosso isolamento, ainda existe o fato de que o que se escreve nesses pequenos "diários de bordo" não ser levado à sério. Isso sim é importante, e por isso que intitulei esse texto com a "máxima" latina: Libertas Quae Sera Tamen, mesmo que tal liberdade seja assaz limitada.

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* Ver Stuart Hall.
** Da importância da internet e da revolução que ela proporcionou já tratei em outro texto, não precisando me debater aqui. É de se falar também que, mesmo não sendo mais prática corrente entre as garotas e garotos de minha geração, nós chegamos a trocar algumas cartas uns com os outros.
*** A não ser que se trate de algo assaz ofensivo.

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por Visconde de Sabugosa às 15:13


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