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BLOG do VISCONDE


Sábado, 12.05.12

Adeus, Miguel!

Neste 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa. Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.

 

 

 

Este foi o meu 25 de Abril mais triste de sempre.

Queria estar em Lisboa para dizer adeus, abraçado aos meus amigos de sempre.

Miguel nos deixou.

E ficamos todos mais sozinhos.

E o nosso mundo ficou menor, ficou mais pequeno, ficou mais escuro.

Ele era aquele que sempre nos animava com aquela alegria, uma luz imensa como o céu da Lisboa que ele tanto amava.

Tinha uma grandeza de horizontes.

Engajava-se com paixão em cada projeto, porque o Miguel só sabia viver assim, a mil, com pressa.

Vivia um caso de amor com o futuro.

Essa voracidade alimentou uma inteligência mordaz, feroz, conquistadora.

Mas quem conheceu o Miguel sabe que ele era um doce de pessoa.

Olho para trás, para o dia que o conheci no Liceu D. Pedro V, e ainda éramos imberbes.

A revolução nos fez adultos precoces.

Ela nos fez acreditar que era possível, e isso foi o bastante.

Empurrados pela história que nos despertou para a vida, mergulhamos na vertigem, à procura de um novo Abril.

Mesmo depois de tantos anos e tantas derrotas, Miguel era dos que sabiam que valia a pena perseverar.

Abraçamos a mesma promessa, mas seguimos estradas diferentes.

A distância nunca foi grande para nos separar.

Ao longo destes quase quarenta anos nossos reencontros, sempre que um de nós cruzava o Atlântico, foram uma felicidade.

E redescobríamos, um nos olhos do outro, o que a vida nos fez.

Miguel era muito divertido, e me ajudou muitas vezes a me fazer rir de mim mesmo.

É para que isso que os amigos servem.

Me lembro, comovido, da sua vibração militante, um corajoso.

Porque tudo no Miguel era intenso.

Tinha um entusiasmo incansável pela vida, e uma imaginação política incomum.

Tudo isso e muito mais, no Miguel, transbordavam.

Ele sempre foi avassalador.

É assim que quero recordá-lo.

Tudo isso nos unia.

Não fosse o bastante, quis a ironia da vida que, em momentos diferentes, o amor pela mesma mulher, também nos uniu.

Nesta quarta feira, um 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa em um Teatro.

Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.

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por Visconde de Sabugosa às 21:01

Quarta-feira, 19.09.07

Nasce um texto...

    Quando se escreve um texto, seja ele longo ou curto, romance ou conto, uma crônica ou um poema, é porque algo se tem a dizer. Há a necessidade de se exprimir, de repassar suas idéias e sentimentos seja como homem, seja como escritor, ou ainda ambos, pois um não vive e se completa sem o outro. Quando brota da mente do escritor, o texto vem simplesmente pela teimosa necessidade "físico-psicológica" de se expressar, de se deixar dizer, de chocar e polemizar. Talvez pelo fato de não ter nada mais importante, para aquele que escreve, que o escrever propriamente; talvez não, talvez seja uma intervenção qualquer, física ou psicológica (ou ambas), multicolor e multifacial, que degrade o escritor segundo a segundo, fazendo culminar o texto: uma explosão de sentidos e idéias ruminadas no cérebro.
    Sentado em sua cadeira ou poltrona, bruxuleando movimentos frenéticos e com as pontas dos dedos calosas em decorrência do contato com os teclados, ou da força exercida para segurar o cotoco de lápis corrente numa folha de papel, o escritor conserva a constante e teimosa mania de escrever. E a faz não porque é sensível ou manipulador, mas porque é um amargurado, um sóbrio desatinado, um átomo entre milhões de átomos, somente não seco, que busca na vida, e para a vida, um sentido. Em síntese, é um artista por excelência, e por isso escreve, e se balança, e se contorce, e se dedica tão febrilmente a tal aguçada arte..., para abafar as angústias da mente e do coração.
    É quase uma paranóia, um frenesi assumido por esse híbrido e louco personagem que desemboca nas páginas todo o seu viço rançoso de homem comprometido e amargurado, que bebe, a sorvos esparsos, seu uísque ou café. Com um olho na tela do computador (ou na folha) e outro na droga, sua e chora e conversa. E procura sempre o melhor, porque talvez saiba que se expressar não basta e que para dizer algo tem que o redizer, pois quase tudo, e isto é certo, é/foi dito.
    Com isso transgride muitas vezes e se aporrinha outras tantas, pela sua repentina e inquietante impaciência, pois evita escrever às escuras, por não ser fácil a sua tarefa, nem suave. Muito pelo contrário. Ele briga, esperneia, e quando o espírito não está bom para tão árduo exercício, ele escreve mesmo assim, só para ter a certeza do dever cumprido, da tarefa concluída. Nasce aí mais um filho, gerado de si totalmente, de suas entranhas de escritor convulsivo. Nasce o texto tão esperado, com todas as mandingas e artimanhas do artista escritor, de olhos vermelhos à frente do monitor de computador. Um texto seu que não é seu, com toda a fraca força imbuída em suas palavras. Leia-o, se quiseres, ou não, leitor. É sua a escolha.

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ESSE TEXTO É DE 29/05/2002. POSTEI-O (TRANSCREVI-O) AQUI POR UM SIMPLES E ÚNICO MOTIVO: DIALOGAR COM O TEXTO QUE O PRECEDEU AQUI NO BLOG DO SAPO. NO MOMENTO EM QUE EU ESCREVIA AQUELE, LEMBREI-ME QUE TINHA ESTE ESCRITO. FICA AÍ PARA O DEBATE...

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por Visconde de Sabugosa às 21:58


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