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BLOG do VISCONDE


Sexta-feira, 21.09.07

Libertas Quae Sera Tamen

    Quem se depara com o título desse texto deve se perguntar por que diabos um dístico latino... Por que exatamente esse trecho, "Liberdade ainda que tardia", extraído da primeira Égloga de Virgílio e proposto pelos inconfidentes mineiros para marcar a bandeira da república que idealizaram, no século XVII, vem sugerir o assunto desse texto? Logo uma expressão latina, "antiquada" para os dias de hoje e apenas lembrada quando nos deparamos com a bandeira do Estado de Minas Gerais?
    Pois bem, o que sugere a colocação de um título desse quilate não é, a bem da verdade, nada tão inovador e/ou revolucionário quanto a conotação que o dístico assumiu nos idos do século XVII, num país colônia chamado Brasil. Sugerido, na época, por Alvarenga Peixoto e aprovado por Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, todos exímios latinistas, a frase serviu como palavra de ordem para a Inconfidência Mineira, movimento revolucionário ocorrido em 1789 contra o domínio português. Não, o propósito aqui é bem outro e recai, talvez, em algo até sem importância: os blogs.
    Até bem pouco tempo, como afirmei no primeiro texto postado aqui no Sapo, não sabia nem como iniciar um texto nesse pequeno quadrado que nos oferecem para postamos o que nos der vontade, independente de sermos ou não lidos, se seremos ou não "ouvidos" (eu, particularmente, penso que não). O que então me compraz a escrever algumas turvas linhas sobre algo quase que irrelevante, usado na maioria das vezes como diário pessoal, e não como laboratório de idéias?
    A resposta para esse questionamento é simples e direta: a liberdade que os blogs proporcionam às pessoas de se comunicarem e de exporem o que sentem e pensam. Mas acima não afirmei que os blogs são, na maioria das vezes, irrelevantes? Sim, e são mesmo. Na minha opinião a maioria dos blogs espalhados pela web não têm importância alguma (inclusive este, de repente), a não ser para as pessoas que o escrevem e para um pequeno grupo que se identifique com ele. Do mais, servem apenas para serem guardados em quartinhos sujos de badulaques. Mesmo porque acredito que mais de 90% dos blogs que rolam na internet são produzidos com o intuito puro e simples de diário pessoal, ou melhor, de fofocas pessoais do cotidiano adolescente.
    Todavia, mesmo nesses blogs há algo um pouco maior que a fofoca diária e irrelevante. Remeto-me à liberdade de expressão e à rapidez com que são "publicadas" idéias e fatos, a um baixíssimo custo. Talvez sejam essas as grandes vantagens de um blog. Em tempos em que as pessoas se encastelam em suas casas, tornando-se cada vez mais consumistas e individualistas, porém fragmentadas por diversas identidades*, essa ferramenta acaba atuando como veio comunicador (ainda que restrito) entre pessoas de um mesmo grupo. Ou seja, em tempos em que a liberdade é ainda mais limitada, Fulano escreve um texto e o repassa para Cicrano, que deixa seu comentário...
    Essa rede acaba proporcionando a comunicação e a troca de experiências entre os grupos e até mesmo entre pessoas que gravitam em torno desses grupos. Mesmo que sejam mexericos interpostos e "enriquecidos" com imagens e vídeos, há a troca de experiências que, para esta ou aquela pessoa, dizem algo. Esse é também o papel dos sítios de relacionamentos, onde encontramos pessoas que há tempos não víamos e até conhecemos novas através das comunidades que freqüentamos.
    Vejam bem que não sou um entusiasta dos blogs, fotologs e sítios de relacionamentos, irrelevantes para mim, ainda que eu tenha um blog e uma conta no orkut. Ao contrário... Como eu passei toda a minha adolescência distante da internet, ainda sou mais adepto da concepção de José Saramago, que diz que a carta é muito mais romântica que o e-mail, por exemplo, na medida em que naquela podemos esperar uma lágrima e neste não**.
    Ademais, se não sou um entusiasta desse novo veículo de comunicação, que é o blog, não deixo também de salientar sua relativa importância. Isso porque nele as pessoas dizem o que querem, com uma linguagem própria -- denominada, se não estou enganado, de internetês --, livre da padronização viciante da linguagem formal e que dialoga diretamente com  a forma de ver e pensar o mundo das pessoas que a utilizam. Assim, é  plausível uma pessoa publicar um blog falando de comida, fofocas, religião, sexo, literatura (ou tudo isso junto), sem o compromisso, por hora, de ser julgado pelo que escreveu***, mesmo porque nem precisa assinar com o seu verdadeiro nome.
    Contudo, se parar-se para observar é fácil notar que essa liberdade é limitada, não ultrapassando os limites impostos pela sociedade -- nem sequer ameaçando-os. Ou seja, além de as pessoas de hoje (como as de ontem) não terem liberdade, e os weblogs, como a internet colaborarem com o nosso isolamento, ainda existe o fato de que o que se escreve nesses pequenos "diários de bordo" não ser levado à sério. Isso sim é importante, e por isso que intitulei esse texto com a "máxima" latina: Libertas Quae Sera Tamen, mesmo que tal liberdade seja assaz limitada.

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* Ver Stuart Hall.
** Da importância da internet e da revolução que ela proporcionou já tratei em outro texto, não precisando me debater aqui. É de se falar também que, mesmo não sendo mais prática corrente entre as garotas e garotos de minha geração, nós chegamos a trocar algumas cartas uns com os outros.
*** A não ser que se trate de algo assaz ofensivo.

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por Visconde de Sabugosa às 15:13

Quinta-feira, 20.09.07

Bom, bonito, Livre e de graça

    É comum dizermos que a internet é/foi uma revolução. Porém, o que a maioria das pessoas não entendem é a real profundidade de uma Revolução. A expressão Revolução sugere ruptura, mudança brusca no modo de ver e pensar o mundo, abertura e crescimento. Só se pode afirmar que houve de fato uma Revolução quando os ícones (os símbolos) à sua volta foram duramente atacados e vencidos, passando não mais a existirem, ou, na melhor das hipóteses, existindo, mas não sendo dominantes. Na história temos alguns momentos revolucionários, como o cristianismo, que alterou toda a concepção de ver o mundo no Ocidente, a Revolução Francesa (1789), que alterou os modelos sociais e de produção, institucionalizando o capitalismo, e a Revolução Russa (1917), a mais importante, sem dúvida alguma, das Revoluções do século XX.

    Porém, como já deve ser sabido pela maioria, uma Revolução não se dá através de um fato esporádico e isolado no tempo e no espaço. Ela nasce, na verdade, bem antes: no seio da sociedade que ela mesma derrubará. Em outras palavras, como diria o velho Marx, o modelo econômico (sócio-político) oferece as ferramentas para a sua própria derrocada. Em suma, o capitalismo nasceu nos burgos e no seio dos palacetes reais mantidos pelo modelo escravista, como o socialismo nasce do capitalismo, independentemente de crerem ou não nessa hipótese*.

    O que quero dizer que tudo isso é que a Internet é sim um instrumento que, se não é revolucionário, ao menos é "simpático" à revolução. Vejamos bem o porquê: a internet está mudando substancialmente e sistematicamente os hábitos das pessoas. Quando é que, há 10 ou 12 anos atrás, um sujeito iria conhecer outro em estados ou países diferentes sem sair de casa? Ou então, quando um acadêmico teria acesso a trabalhos produzidos por outros acadêmicos, em outras instituições universitárias, com poucos cliques em um mouse? A internet democratiza de fato quase tudo: possibilita a difusão real de informações e a troca de experiências mútuas entre pessoas de diversos locais. A ÚNICA FRONTEIRA A SER VENCIDA É A FRONTEIRA LINGÜÍSTICA. Até mesmo o flerte amoroso, o namoro, ficou diferente com o advento da Internet. Lembro que na minha época de adolescente (não que eu seja velho - hehehe), a aproximação junto a uma garota era uma tarefa das mais difíceis. Hoje um  simples e-mail resolve esse problema.

    Todavia, quando afirmo que a World Wide Web é apenas simpática à revolução é porque, apesar de ser extremamente revolucionária, corrobora também o pensamento alienador pregado e difundido pelas elites burguesas mundiais, na medida em que acaba encastelando, algumas (ou muitas?) vezes, sujeitos dentro de seus próprios ninhos. A prova disso são as pessoas viciadas em messengers e/ou sítios de relacionamentos, como o orkut ou o gazzag, por exemplo. Para essas pessoas até o sexo, muitas vezes, é virtual. O mundo que o cerca é virtual; tudo é uma grande matrix. Ou seja, existem pessoas que não têm convívio social fora do ambiente virtual. O que a inernet revolucionou foi a possibilidade de todos expressarem -- mesmo que não em pé de igualdade com os grandes portais mantidos pelas empresas que estão no poder -- via rede. Fato que não aconteceu com o rádio, com o cinema e com a TV, como bem constatou Adorno.

    Hoje, em pleno século XXI**, assistimos a uma outra Revolução, talvez tão poderosa quanto a Internet, que é a ascensão dos softwares livres. Mas o que são de fato esses softwares? Segundo a Wikipédia (http://www.wikipedia.org), "Software livre é qualquer programa de computador que pode ser usado, copiado, estudado, modificado e redistribuído sem nenhuma restrição. A liberdade de tais diretrizes é central ao conceito, o qual se opõe ao conceito de software proprietário, mas não ao software que é vendido almejando lucro. A maneira usual de distribuição de software livre é anexar a este uma licença de software livre, e tornar o código fonte do programa disponível. O software livre também é conhecido pelo acrônimo FLOSS (do inglês Free/Libre Open Source Software)".

    Esses programas têm mudado o perfil do usuário em informática e têm forçado as empresas de softwares proprietários (softwares comerciais) e reduzirem os preços de seus produtos, como forma de não perder tanto mercado. Porém, a grande vantagem de um software livre talvez não seja o preço (gratuito), mas sim a liberdade que ele proporciona ao usuário, a adaptabilidade às novas tecnologias de Informação e a constate e rápida melhoria nos programas, na medida em que um número muito maior de empresas e programadores têm acesso ao seu código fonte***. Daí hoje softwares como Linux, OpenOffice, Firefox, Gimp, Scribus e Blender serem, senão superiores, iguais aos offices proprietários concorrentes.

    Essa real mudança no perfil do usuário em informática, não coincidentemente, num momento em que o neo-liberalismo -- encabeçado principalmente pelos EUA -- está perdendo suas forças e entrando em "retrocesso". Prova disso são os altos índices de desemprego que assolam países como EUA, Alemanha e Itália, por exemplo, e a recessão das economias francesa, inglesa e estadunidense. O caos é iminente e mudanças serão necessárias. E uma delas já está acontecendo nesse exato momento. Chegará o dia em que a maioria dos "pcs home" utilizarão softwares livres. Quem viver verá.


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* O que não pode haver é a confusão entre Revolução e Reforma. Reforma seria uma tentativa de mudança, pequena que fosse, dentro do modelo estrutural vigente, porém nunca uma ruptura desse modelo, como propõe a Revolução. É o que busca, em tese, uma "frente popular" (modelo teoricamente adotado pelo PT de Lula, porém muito mais antigo, como todas as táticas políticas atuais). Na Reforma não há mudança política estrutural, como também não melhoria na qualidade de vida da maioria da população.

** Século que se iniciou somente no dia 11 de setembro, após o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, EUA.

*** Empresas como a Sun Microsistems, Red Hat, IBM, Novel, Google, dentre outras, já lucram explorando esse vasto mercado de software livre. A Sun, por exemplo, liberou parte do código fonte do StarOffice para a criação do OpenOffice. Como a empresa não perde a licença, o código fonte deste é responsável pela melhoria daquele (StarOffice), que evolui rapidamente, passando a ter uma abrangência e um reconhecimento muito maior no mercado de informática. Muitas vezes, programas livres como o OpenOffice, o Blender ou o Firefox, por exemplo, são multi-plataforma, ou seja, funcionam tanto em Linux, como em Windows ou Mac.

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por Visconde de Sabugosa às 15:23


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