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BLOG do VISCONDE


Sexta-feira, 28.09.07

A caricatura do caipira (Jeca) na expressão de Amácio Mazzaropi

Surgindo para o cinema em 1952, com o filme em preto e branco Sai da frente, somente final da década de 50 Mazzaropi, com o filme Jeca Tatu, retrabalha a figura do caipira. Não o faz pela ótica do Lobato dos anos quarenta, mas sob outro viés: não o da contestação pura e simples, a reivindicar uma identidade positiva para o povo, calcada em preceitos revolucionários, mas pelo riso, o do cinema-comédia voltado para as massas, sem muito rebuscamento estético. Acontece que, satirizando o caipira, Mazzaropi acaba detratando ainda mais sua imagem, já impregnada de preconceitos. Porém, ao mesmo tempo em que reforça o estereótipo do caipira, aponta-lhe uma saída, mesmo que compensatória: o caipira, através da “malandragem”, chega, ao final da trama, à riqueza.

Produzido em um momento em que o modelo econômico privilegia a abertura do mercado brasileiro ao capital externo, Jeca Tatu se mantém alheio aos problemas enfrentados pela cinematografia nacional. Isso não ocorre à toa, já que Mazzaropi, além de resgatar todo um imaginário coletivo relativo ao homem do campo e ao campo, atraindo assim um vasto público, já nessa época, para as salas de exibição, que iam assisti-lo para matar as saudades da terra de origem, cria um sistema relativamente organizado de produção e distribuição de suas produções.

Dirigidas aos que denomino no texto de “novos trabalhadores” das cidades, aqueles trabalhadores migrantes do interior, ou das regiões mais pobres do país, para trabalhar nas indústrias das grandes cidades, em busca de uma vida melhor, as produções de Amácio Mazzaropi resgatam o imaginário romântico e poético do campo, trazendo à tona um complexo sistema de imagens que se identificava diretamente com esses novos homens, não somente por trazerem um caipira eivado de “nobres sentimentos”, mas principalmente por trazerem a imagem de um homem simples que, no final, vence na vida. Daí seu grande sucesso de público e renda.

Paralelo a esse projeto de cinema de Amácio Mazzaropi, existe um outro, de fundo mais político, que consiste também em qualificar o cinema enquanto indústria, somente que mantida pelo Estado: refiro-me ao Cinema Novo. Com ideais herdados do período varguista e incentivados também pela incipiente industrialização decorrente da revolução de 30, esses cineastas se propunham manter e reforçar os desejos de industrialização do cinema. O problema é que o Brasil assistia, à época de Mazzaropi, a um espetáculo diferente: a abertura do mercado brasileiro para o capital estrangeiro, propiciada pelo governo Kubitschek, inviabilizou qualquer investimento do Estado para a criação e consolidação de uma indústria nacional de cinema.

Aliado a isso, esboçava-se também um projeto cultural centrado no resgate literário de escritores da geração de trinta, como Graciliano Ramos, Drummond, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e o próprio Monteiro Lobato. Surgia um esboço de concepção de cultura brasileira, alicerçada na elaboração de histórias de fundo nacional. Nesse sentido, Mazzaropi participou desse movimento, na medida em que criou tipos e caracteres extraídos da cultura nacional. Seu próprio Jeca é um exemplo, pois, além de ser um tipo nacional, representa, sob certos aspectos, uma resistência ao modelo capitalista de produção no campo.

Representante mais expressivo da chanchada paulista, Amácio Mazzaropi cria, com Jeca Tatu, a imagem de um caipira que se cristalizaria. Isto é, em duas décadas de produções fílmicas, onde o homem do campo é a temática principal, os seus personagens, em termos físicos e psicológicos, pouco mudam. A bem da verdade, o Jeca Tatu do filme mistura elementos dos dois primeiros estereótipos lobatianos, a que acrescenta outros. Do primeiro caipira lobatiano, de 1914, “Mazza” extrai a preguiça característica como qualidade do seu caráter; já do caipira de Jeca Tatu: a ressurreição, os elementos para a construção do enredo. Porém, isso não é tudo. Talvez o mais interessante é que, para a produção do filme Jeca Tatu, Mazzaropi se apegou ao texto de Lobato via “Almanaque Biotônico Fontoura” e não ao Lobato “literário” propriamente dito.

O cinema de Mazzaropi é comercial, como é comercial a imagem de seu caipira. Condenado pela falta de ousadia estética, o cinema de Amácio foi de vital importância para a cinematografia brasileira. Além de fortalecer e criar um público que se acostumou a ir anualmente assistir a suas produções, a PAM-Filmes, por ele criada, mostrou-se uma alternativa viável para uma possível consolidação da indústria brasileira de cinema. Na verdade, não somente a PAM, mas também outros estúdios, como a Atlântida, no Rio de Janeiro, por exemplo, o fizeram.

Embora não contribuísse para a conscientização das platéias, as chanchadas provaram que cinema poderia ser uma empresa lucrativa. Empresas como a Atlântida, por exemplo, faturaram milhões com a exibição de chanchadas. Desvinculadas do gosto do ocupante e contrárias aos interesses estrangeiros, para citar Paulo Emílio Sales Gomes, as chanchadas proporcionavam ao espectador um envolvimento tamanho que sua participação era direta, a ponto de a platéia ser considerada barulhenta. Daí, também, a confluência entre a chanchada e os filmes de Mazzaropi. Neste pela figura do caipira, que resistia aos interesses externos; naquela pela adoção do malandro, do pilantra, por parte da platéia. Em ambos os casos, o que está em jogo é, em última instância, uma resistência à cultura dominante, que deprecia a cultura popular.

Somente com a fundação, em 1966, do Instituto Nacional de Cinema, o INC, é que o cinema brasileiro passa a ser olhado com mais atenção pelo Estado brasileiro. É que finalmente o governo brasileiro passa a financiar o cinema, dando-lhe um caráter mais comercial, se comparado aos cinemanovistas da década de 50. A intenção é uma só: a ditadura militar pretende financiar a cultura, com o claro objetivo de controlá-la plenamente. Esse o propósito do Instituto. Ou seja, por meio do INC o governo passa a controlar o cinema, tendo em vista o mercado, o consumo, e o controle ideológico. Essas metas seriam alcançadas com a associação a capitais estrangeiros, unindo, ao capital destinado à produção cinematográfica brasileira, o capital estrangeiro das indústrias cinematográficas hollywoodianas.

Essa política cultural do INC e da ditadura militar serviu, finalmente, de estopim para uma disputa ideológica entre um setor mais avançado do Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha e Luiz Carlos Barreto, e o Estado. Para os intelectuais cinemanovistas, a criação de uma indústria de cinema financiada pelo Estado era bem-vinda desde que não tirasse a autonomia dessa indústria. Ou seja, o que queriam Glauber e Barreto ia de encontro aos propósitos culturais e ideológicos do INC e do governo ditatorial. Enquanto estes pretendiam financiar, com o auxílio do capital estrangeiro, o cinema, tirando-lhe toda e qualquer autonomia de produção, os cinemanovistas pretendiam uma indústria cinematográfica nacional, porém independente.

Assim, mesmo com o golpe de 1964, uma parte da elite intelectual de esquerda continuou atuando, no sentido de educar o povo e levá-lo à revolução. Essa cultura esquerdizante acabou se manifestando com maior intensidade principalmente até 1968, quando entrou em vigor o AI-5, que viria a restringir em muito a atuação dos intelectuais contrários ao regime então em voga. Dessa disputa no campo ideológico é que surgiria, dizia, o polêmico INC.

Criado, como se constatou, para regular e financiar o cinema nacional, o órgão vislumbra seu primeiro longa de sucesso apenas em 1969, quando foi produzido Macunaíma, de José Pedro de Andrade. É o primeiro filme, produzido pelo Cinema Novo, com relativo prestígio de público e renda. Tanto que se torna referência enquanto produção cinematográfica, conquistando o reconhecimento e o respeito de intelectuais ligados ao órgão, que passaram a adotá-lo como referência e “padrão”.

Conseguindo aliar uma proposta cultural a um projeto meramente mercadológico, Macunaíma faz parte de uma nova concepção de se pensar e produzir cinema, encabeçada por uma nova geração de cinemanovistas, que souberam adaptar-se ao momento histórico. Ou seja, com o financiamento por parte do Governo Federal, via INC, os intelectuais do cinema, com raras exceções, moldaram-se à proposta mercadológica e de associação de capitais, produzindo filmes com vistas unicamente ao entretenimento puro e simples, relegando a um segundo plano a proposta revolucionária do Cinema Novo da década anterior.

Esse é o momento em que as concepções de cinema dos cinemanovistas mais se assemelham às de Amácio Mazzaropi. É nesse contexto conturbado da história não só cultural, mas também social brasileira que se insere o filme O Jeca e a Freira. Produzido em 1967, ou seja, no meio do fogo cruzado entre intelectuais de esquerda, avessos ao modelo econômico e cultural vigentes, e o Estado, o filme é mais valioso enquanto expressão combativa à ditadura, do que enquanto obra de arte propriamente dita. Não que Mazzaropi tenha se preocupado em produzir um cinema combativo e desalienante, que visasse a mostrar as contradições do modelo econômico ou até mesmo expor as mazelas de um país semi-analfabeto. Todavia, isso não quer dizer que essa ou aquela produção não tenha captado elementos sócio-político-culturais do tempo em que foi produzida. Tanto é assim que, no período compreendido entre 1964-1968, “Mazza” produziu filmes que, se pecaram pela qualidade estética, ao menos se sobressaíram nas críticas veladas contra a ditadura.

Desses filmes, talvez o que melhor conseguiu captar esses conflitos foi justamente O Jeca e a Freira. Tendo como pano de fundo para a trama uma fazenda no interior de São Paulo, e misturando elementos culturais diversos, tais como negros brasileiros, capangas trajados à moda dos cowboysfar-west, o filme é uma mostra clara de que Mazzaropi não permaneceu completamente esquivo aos problemas que o cercavam. hollywoodianos e vestimentas exageradamente coloridas, fazendo os membros da elite parecerem-se com tipos mexicanos de filmes de

Uma mostra clara disso é o fato de o filme ter discutido, quase à exaustão, a ditadura militar. Mesmo “borrando” o tempo — o que tornou, como se indicou na análise, o filme inorgânico, no sentido histórico —, mesclando tipos e caracteres diversos em um ambiente social cujo momento histórico não fica claramente definido, O Jeca e a Freira, apesar de tudo, é parte integrante do momento histórico em que foi produzido. Isso porque, conforme exposto, o filme é crítico ao modelo econômico vigente e à repressão imposta pelos militares.

Claro, é preciso destacar que mesmo debatendo e questionando o modelo sócio-econômico-cultural vigente, O Jeca e a Freira, assim como Macunaíma, não passam de produções “despretensiosas”, em que o caipira, ou o homem do interior do país, não é mais que uma caricatura vinculada a uma imagem pré-estabelecida de um tipo social. Em suma, o caipira, em Mazzaropi, é um só, pouco se alterando os seus filmes em seus conteúdos estéticos e psicológicos. A fórmula que “Mazza” encontra para adaptar o Jeca Tatuzinho do “Almanaque Biotônico Fontoura” é largamente adotada até 1980, ano de sua última produção: O Jeca e a égua milagrosa.

Mesmo assim, entre os “jecas” de Lobato, estereotipia, e os “jecas” de Mazzaropi, também estereótipos, adotados daquele, restaria uma imagem: a do caipira deslocado no tempo, precisando, ao mesmo tempo, dialogar com esse mesmo tempo: Lobato e Mazzaropi, com os seus “jecas”, traduzem, enfim, a trajetória do capitalismo à brasileira, com suas contradições entre modernidade e atraso, recobrindo boa parte do século passado.

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por Visconde de Sabugosa às 16:35

Quinta-feira, 27.09.07

ABORTO, opção ou imposição?

    Nas vésperas de um encontro continental* que visa a discutir a legalização ou não do aborto na América Latina, instituições de direita, apoiadas pelo Vaticano, vão à ofensiva no intuito de frear as manifestações de apoio e de impedir que a mulher tenha o direito de optar em interromper a gravidez. A interrupção voluntária da gravidez precisa deixar de ser crime, pois só a mulher pode decidir sobre seu próprio corpo.

    Num sistema patriarcal e machista como o sistema capitalista, as burguesias de todo o mundo relutam a idéia de sequer cogitar tal hipótese. Ao invés disso, preferem argumentar que tais práticas são contrárias aos ideais de familia e de Deus. Amparadas pelo discurso conservador da Igreja Católica**, coíbem as manifestações favoráveis à legalização do aborto, impedindo assim o livre-arbítrio da mulher decidir ou não seu destino.

    Como já é de conhecimento de praticamente todas as pessoas,  a interrupção voluntária da gravidez antes dos 3 meses de fecundação não é crime. Isso porque somente a partir do terceiro mês de gravidez é que se pode afirmar que existe uma vida. Além disso, a legalização evitaria milhares de mortes que acontecem todos os anos em clínicas clandestinas e em práticas mal feitas por mulheres pobres que não têm acesso às clínicas.

    Não é a toa que, no Brasil, as manifestações acontecerão em grandes cidades, como Belo Horizonte , Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro***, onde clínicas dessa espécie são comuns. Nenhuma mulher é obrigada a aceitar uma gravidez casual, por exemplo. Favorável que sou ao direito da mulher decidir o seu destino, repudio qualquer prática elitista de manifestação anti-aborto. Quem pensa o contrário corrobora, mesmo que sem intenção, ideais conservadores, repressores e machitas. Entrem nessa luta também.


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* Será nessa sexta-feira, dia 28/09/2007.

** Instituição hoje "comandada" pelo Papa Bento XVI (ou Joseph Ratzinger), antigo aviador do exército nazista de Adolf Hittler, na Segunda Guerra Mundial.

*** Respectivamente capitais dos Estados de Minas Gerais, Ceará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

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por Visconde de Sabugosa às 23:34

Terça-feira, 25.09.07

Moeda verde Floripa

    Uma região da Espanha visitada pelo governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (LHS), em março último, foi tema de artigo da Folha no domingo (05/08/07): "Boom imobiliário destrói litoral espanhol". Opa! Que coincidência com a situação vivida em Florianópolis!

    E o artigo continua: "Quase 400 prefeituras estão sob investigação por obras irregulares, muitas em praias sob proteção ambiental; cinco prefeitos estão presos". Alguma semelhança com a Operação Moeda Verde?

    Segundo artigo publicado no site do Governo do Estado de Santa Catarina, LHS comemorava, em março último, a decisão de um grupo espanhol [!] de investir em um grande complexo turístico em Santa Catarina, com uma estrutura de até dez vezes o tamanho do projeto de Jurerê Internacional [!!].

    No artigo da Folha aparece a cidade expoente da prosperidade espanhola. "O maior foco dessa corrupção é um antigo reduto do jet-set europeu, Marbella, na Costa do Sol, ao sul do país, onde um prefeito foi deposto em 2002 e seus dois sucessores estão presos por corrupção e abusos urbanísticos".

    O artigo “Governador aponta entraves”, publicado no jornal A Notícia, em 27 de março de 2007: "O novo complexo turístico ficaria sediado em Governador Celso Ramos, com estrutura semelhante à encontrada pela comitiva de Luiz Henrique em Marbella [uau!], na Espanha, incluindo um terminal para transatlânticos e marina para mais de 500 barcos".

    Nosso governador é ou não é um piadista? Pena que o palhaço da história não seja ele.

    Em tempo: LHS ganhou em 2006 o Prêmio Motosserra de Ouro, da Rede de ONGs da Mata Atlântica. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, Santa Catarina foi líder em desmatamento do bioma entre 2000 e 2005, período em que aumentou seu índice de desmatamento em 8%, equivalente à supressão de 48 mil hectares de florestas. Outros sete Estados, juntos, desmataram 46 mil hectares.


("Se em Marbella pode, pq aqui não pode?") -> vide entrevista Luiz Henrique TVBV.


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ARTIGO EXTRAÍDO, NA ÍNTEGRA, DO BLOG: "MOEDA VERDE FLORIPA", EM: http://moedaverde.blogspot.com/

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por Visconde de Sabugosa às 23:03

Quinta-feira, 20.09.07

Imagens sedimentadas de um país colonizado

    Sem surpresas abro o sítio do PSTU* (http://www.pstu.org.br) e me deparo com a manchete estampada, em destaque, na página inicial: Renam Calheiros** é a cara do  Congresso. À manchete seguia uma leitura detalhada da sessão que impugnou a cassação do Senador e a perda de seu cargo na presidência do Senado brasileiro. "Por todo o país, milhares de trabalhadores reagiram com profunda indignação. Afinal, os pobres são presos, espancados pela polícia e passam anos na cadeia. Os ladrões ricos seguem sendo senadores, deputados e juízes. Continuam sua vida, recebem seus altos salários, sem nenhum problema" - afirmavam indignados, e com razão, os redatores da notícia.
    O motivo pelo qual se deu o pedido de cassação do Senador condiz com o fato dele, por meio do lobista Cláudio Montijo, ter pago contas pessoais de Mônica Veloso, com quem teve uma filha, no valor de R$ 12 mil*** (doze mil reais) mensais.
À frente de toda operação para salvar o presidente do Senado, estava o PT****, encabeçando a base do governo. Também os setores da oposição de direita, próximos a Renan, se movimentaram para garantir a impunidade ao senador.
   
Às vésperas da sessão, os aliados realizaram um intenso corpo a corpo e lançaram mão dos velhos mecanismos para angariar apoio para Renan: troca de favores políticos e cargos, liberação de verbas do Estado, etc. Corrupção descarada, praticada à luz do dia. Tudo com o apoio do Planalto. Desde o início da crise, o governo se mobilizou para livrar Renan. Lula mal conseguiu disfarçar seu apoio ao corrupto senador. Questionado por repórteres, o presidente disse que “todo ser humano, todo brasileiro, 190 milhões de brasileiros, inclusive você, terá o meu apoio porque todos são inocentes até prova em contrário”.
    Renan e sua tropa de choque diziam ao governo que, caso o senador fosse cassado, a coligação de partidos que compõe a base aliada de Lula no Senado (da qual o PMDB tem importância central) estaria ameaçada. Isso explica porque a líder do governo, senadora Ideli Salvati (PT-SC - meu estado), e o senador Aloizio Mercadante trabalharam intensamente pra livrar a cara de Renan. Ao final, Mercadante procurou diminuir seu desgaste dizendo que se absteve. O voto, na prática, ajudou Renan.  
    Também foi escandalosa a posição adotada pelo PCdoB e seu senador, Inácio Arruda (CE). Apesar de fazer mistérios sobre como votaria, Arruda nem precisou revelar seu voto, pois o próprio sítio do seu partido não cansou de fazer uma intensa campanha pró-Renan. “Depois de três meses de investigações nas quais a vida pública e privada do senador foi revirada e vasculhada não se encontrou uma única prova que confirmasse tal acusação”, afirma na maior cara-de-pau o artigo do PCdoB, publicado no último dia 12.
    Como bons mafiosos que são a maioria do Senado acabou protegendo o senador por ter, juntamente com ele, o "rabo preso", como comumente se diz na gíria. Isso porque se o senador da república fosse de fato caçado muitos (diga a imensa maioria) iriam com ele, desencadeando um verdadeiro efeito cascata.
sessão do Senado que votou o relatório do Conselho de Ética foi um show de escândalos. Sacando uma medida prevista pelo regimento interno da Casa, a mesa do Senado impôs uma sessão secreta. Afinal, coisa feia se faz escondido...
    O som do microfone chegou a ser desligado para que ninguém ouvisse os discursos e as ameaças trocadas entre os parlamentares. A cena lembrou velhos filmes sobre máfias. Sem que ninguém pudesse ouvi-los, os senadores negociaram livremente cada voto, como um verdadeiro antro de gangsters. Para coroar o ridículo espetáculo, o vice-presidente do Senado, o petista Tião Viana, chegou a proibir o uso de celulares e computadores portáteis no plenário, ameaçando de cassação os senadores que revelassem informações sobre a sessão (!). Foi a desmoralização do próprio absurdo.
    Mesmo assim, várias informações vazaram e logo se descobriu o motivo que salvou Renan. Cassando Renan, os senadores poderiam abrir um precedente que levaria à degola de inúmeros outros parlamentares. Afinal, todos estão com o rabo preso em vários trambiques, como sonegação de impostos, caixa dois e, principalmente, com o financiamento de empreiteiras e de bancos. Mesmo a campanha presidencial de Lula foi financiada por grandes empreiteiras.
    Entre as maiores doadoras estão as construtoras Camargo Corrêa, OAS e Andrade Gutierrez. A campanha para a reeleição de Lula levou R$ 6,7 milhões dessas três. Metade das empreiteiras que aparecem na lista das vinte entidades melhor contempladas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está entre as maiores doadoras das eleições gerais do ano passado. Sabendo disso, o presidente do Senado e sua tropa de choque ameaçavam abrir os “portões do inferno”, revelando os crimes e a corrupção escondida debaixo do colarinho de cada parlamentar para disseminar o medo. Em certo ponto do discurso, o próprio Renan ameaçou "abrir o jogo" e contar tudo o que acontece dentro das paredes do Senado da Repúlica... Todos entenderam o recado.

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* Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, seção brasileira da LIT - 4 QI (Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional), encabeçada pelo Revolucionário Russo e comandante do exército vermelho, Leon Trotsky.
** Presidente do desprestigiado Senado brasileiro e filiado ao PMDB do estado de Alagoas, um dos mais pobres estados do Brasil.
*** Moeda brasileira desde 1994 e que corresponde a, aproximadamente, 4.500 euros. Porém, como acredito ser o custo de vida mais alto em Portugal que em muitos pontos do Brasil (talvez não mais alto que o de Florianópolis, ilha onde resido), fiquemos com esse valor mesmo em euros, ou aproximadamente esse valor.
**** Partido dos Trabalhadores, partido do atual presidente da república: Luiz Inácio Lula da Silva.

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por Visconde de Sabugosa às 02:30


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